sexta-feira, 10 de junho de 2011

Daime Soul: A alma musical da Amazônia


Uma brisa de praia invade as narinas com cheiro de mar e de mangue. Um ritmo caribenho embala as melodias de índio e de negro; a soul music, o reggae, o jazz e a música pop brasileira se confundem como numa festa à beira do mar do Marajó, sob a influência do Rio Amazonas e dos americanos de todo canto da América, trazendo em sua bagagem o mundo, que chegam para confraternizar. Assim é o estilo Amazon Words Music de “Daime Soul Vol. 01”, disco e projeto do instrumentista Magrus Borges e da cantora Adriana Cavalcante, que chega a público através do selo Na Music com patrocínio do Conexão Vivo.

Paraense de Belém, Adriana começou a tocar piano aos oito anos e a cantar aos 19. Até 2002 integrou Batom Carmim e Tempero da Tribo, bandas de charme e influências latinas. Depois, seguiu como atriz e fez carreira solo, excursionando e cantando pelo Brasil e pela América Latina, tendo morado na Argentina e no Caribe. Em 2009, foi “descoberta” pela americana Kristina Borges, mulher de Magrus, num bar em Belém do Pará. Kristina a apresentou ao marido e aí teve início o projeto Daime Soul.

Durante dois anos, Magrus e Adriana reuniram-se no estúdio dele em Belém para compor e gravar. Adriana trouxe as letras e as “encaixou” nas músicas e melodias de Magrus, que fez também a produção musical do projeto, tocando bateria, percussão e programando vários instrumentos. “Adriana trouxe alma para o projeto musical que eu queria realizar naquele momento. Nós ficávamos até seis da amanhã bebendo vinho e compondo”, explica Magrus.



Magrus começou sua vida musical em Belém na década de 1970, tocando na Casa da Juventude (Caju), onde formou o Sol do Meio Dia com os músicos paraense Odorico, Rafael Lima, Minni Paulo e Zé Macedo – uma banda que influenciou gerações em Belém. Sua vida mudou radicalmente quando Johny Alf, um dos bambas da Bossa Nova, chegou na cidade e o baterista dele ficou doente. “Alguém me recomendou para tocar bateria com ele e foi uma coisa mágica porque eu já queria sair e ganhar o mundo”, explica.

Aos 15 anos de idade, Antonio Guilherme Borges praticamente fugiu de casa para tocar bateria com Johny Alf. Morou em São Paulo e Rio de Janeiro e tocou também com Maria Bethania, Caetano Veloso, Elza Soares e Luiz Melodia, entre outros. Depois foi estudar música nos EUA, onde também tocou com Grace Jones, Shakira e Larry Coryell. Morou na Califórnia, Miami e Nova York, onde tocou com Jimmy Page, Arthur Lindsay e montou uma banda de rock, o Tall Stories. “Gravei e lancei discos com essa banda, mas não queria só tocar rock, queria tocar outras coisas, adoro jazz e blues."

Em Daime Soul, Magrus potencializou a musicalidade sensível de Adriana com uma produção sofisticada, que inclui ainda várias participações especiais, como do guitarrista Mark Lambert, do contrabaixista MG Calibre, Trio Manari, Daniel Delatuche e Fabrício Cavalcante. “O Magrus tem, pela experiência dele, a capacidade de fazer música com propriedade pop, sendo comercial sem perder a alma, sem deixa de ser de bom gosto e de qualidade”, comenta Adriana, acertando em cheio.

Daimista, Adriana diz que usou a influência de sua espiritualidade e da gente de todo mundo que chegou em Belém em 2009 para o Fórum Social Mundial no trabalho. “People, faixa que abre o disco é cantada em inglês, espanhol e português por causa disso. Traz essa influência do mundo, das minhas andanças”, afirma. A intenção "global" também é defendida por Magrus: "Nós fizemos esse disco para o mundo."



Na segunda faixa, “Amazônia Caribenha” fica mais evidente a influência da música latina no disco. “Canta pra subir” usa a percussão do Trio Manari para compor um canto afro em que Adriana “pede licença” para cantar. De audição fácil, depois de escutar esta canção duas vezes você vai querer ouvi-la muitas outras. Sempre com o viés da espiritualidade e das boas vibrações, “Belo Monte”, entre tantas outras influências, usa a levada tribal da Amazônia para incrementar um protesto sem rancor. É Magroove em ação, como a cantora Grace Jones apelidou o músico paraense.

“I can feel your Love” traz o ritmo e as boas vibrações do reggae, evidenciando a melhor influência de Bob Marley sobre o trabalho de Adriana. MG Calibre, faz as vezes de rap na canção. Em “Mundo dá volta”, uma das mais pegajosas, no bom sentido, a levada da capoeira é que é homenageada trazendo os ensinamentos dessa arte marcial afro brasileira, com uma justa referência a Gilberto Gil.

A cada faixa, as influências dos ritmos e cantos dos povos que ajudaram a formar a cultura amazônica, vão se misturando e se evidenciando para compor um canto de alcance global. A latinidade (em ritmo e linguagem) volta em “Santo Daime” para falar de expansão sensorial e espiritual com um toque psicodélico, mas ainda sem perder a veia pop.

Ainda que o jazz também venha se insinuando em outras faixas, é em “Rain on me”, que encerra o disco, que Magrus evidencia uma de suas maiores paixões. Fabrício Cavalcante, irmão de Adriana, toca guitarra e o arranjo, também de verve latina, ainda privilegia o bom gosto com os metais de Daniel Delatuche e Josibias Ribeiro. E quando o disco acaba, na oitava faixa, não resta outra coisa senão escutá-lo de novo.


Fotos: Na Figueredo
*Edição integral do texto publicado originalmente em O Liberal do dia 17 de maio de 2011

sábado, 30 de abril de 2011

Já princesa

“Tu já rainha” o show que Luê Soares apresentou ontem no SESC Boulevard traz um diálogo de gerações que marca talvez o momento anterior ao despertar da carreira da jovem cantora. Luê começou a cantar há pouquíssimo tempo, no entanto, já consta na programação do Terruá Pará, o projeto de maior visibilidade do Governo do Pará pelos próximos quatros anos. Luê merece. Quem a visse cantar ontem no SESC não diria que ela começou há poucos meses.

Bela, sensual, afinada e extremamente competente, ela tem na figura do pai, Júnior Soares, do Arraial do Pavulagem, mais do que um padrinho de carreira, um preceptor na música. Foi na fonte dele, não resta dúvida, que ela bebeu para tocar rabeca e entoar cantos de lamento e baladas do mais tradicional cancioneiro popular.

E não resta duvida, na presença de Júnior no palco da filha, que o carinho e o afeto transbordam nas canções e nos gestos manifestos públicos de um amor incondicionado. “Tu Já Rainha”, explica a cantora, não é porque ela “se acha” mas se trata de uma canção “profética”, segundo o pai, que ele fez quando ela ainda era um bebê.

Mas Luê já não é mais um bebê. Tem uma voz potente, um corpo que a deixa sem graça quando o vestido deixa mostrar mais do que deve, e desenvoltura pra dançar e descer do salto quando acha que o público merece. Enfim, Nayá (o segundo nome ficou de fora do nome artístico, provavelmente para privilegiar o sobrenome ilustre de família) tem potencial e talentos incomuns para a música tradicional popular e aponta a música pop.


A presença de Júnior no palco serve, como ele mesmo demonstra, para tolher um pouco, talvez para segurar um pouco mais o passarinho antes que ele voe tão alto. Não fosse assim e talvez o repertório não tivesse tantas baladas, tantas toadas, mesmo estilizadas. Não estou revelando nenhum segredo. “Ela tem todo potencial para voar”, diz Junior em uma de suas interferências do show.

O contraste de gerações ocorre logo em “Alumiará”, uma das baladas do pai em parceria com Ronaldo Silva que foi transformada em uma espécie de bossa nova. “Eu insisti na versão, ele não queria, mas no fim ele gostou”, diz. Junior torce o nariz como quem desaprova, mas ri e toca junto. Quando ela toca “Saara” com Arthur Espindola o gosto pelo mais moderno fica ainda mais evidente.

Mas a fonte em que Luê bebeu tem o seu charme, e marca o seu diferencial. Por isso o repertório ta recheado de toadas e canções que também trazem raízes populares como “Festividade” e “Capitulador”, todas pontuadas pela sua rabeca, todas de inspiração bragantina, terra fértil.

“Farois”, que encerra o show, traz um arranjo apimentado de música latina, e nessa hora fica a impressão de que poderia ter “esquentado” um pouco antes, a despeito do auditório muito confortável e bem refrigerado do SESC. O clima intimista teve até participação de Nilson Chaves na platéia, que opinou sobre uma ou outra versão.

Além de Luê cantar muito bem e do timbre privilegiado, ela teve acompanhamento de músicos competentes como Renato Torres (guitarra), Rubens Stanislaw (contrabaixo), Rafael Barros (percussão) e o próprio Júnior Soares no violão de naylon. A sombra que Junior projeta é grande, mas não ofusca.


Talvez, e eu vou me dar o direito à dúvida, se Luê cedesse tão rápido às influências mais modernas, corresse o risco de ter sua voz grave comparada a uma dessas cantoras da média MPB, essas que tem grande técnica e talento mas que foram corrompidas pelo mercado e que já não suportamos ouvir de tanto que se expuseram, inclusive através de seus clones. Dessas que eu prefiro nem citar o nome para não ofuscar o brilho dessa jóia em processo final de lapidação. Ainda bem que ela respeita os mais velhos e tem ainda um preceptor de responsa.

O pai,por sua vez, já mostrou, no Arraial do Pavulagem, que os ritmos tradicionais podem muito bem conviver com os elementos da música pop. Enfim, está muito bem instruída essa princesa. A lua diz amém.


Fotos: Bruno Cantuária

Set List - Tua Já Rainha


1 - Dunas da princesa
2 - Sei lá
3 - Alumiará
4 - Ave Manhã
5 - Nós dois
6 - Tu já rainha
7 - Capitulador
8 - Festividade
9 - Saara
10 - Tempo Invertido
11 - Campo do meio
12 - Delicadeza
13 - Sim
14 - Faróis

quinta-feira, 3 de fevereiro de 2011

Punk Velho Reloaded

Especial Giovani Villacorta relembrando classicos punks locais vai ao ar sábado

O guitarrista, vocalista e compositor punk Giovani Villacorta, atualmente no Norman Bates, recebe uma justa homenagem de Beto Fares e seu Balanço do Rock (No Twitter: @balancodorock). Giovani, que começou em 1988, na banda Ódio do Poder, depois integrou uma das formações mais consistentes da clássica Baby Loyds. Com Regi Cavalcante na bateria e Giovani nos vocais, o Baby Loyds fez apresentações matadoras nas duas primeiras edições do Rock 24 horas. Giovani ajudou a formatar o som do Norman Bates e representa a vertente mais clássica do punk rock paraense, aquela que evoca Coléra, Inocentes e Mercenárias além dos nomes mais obscuros da cena paulista.

A homenagem consiste em uma apresentação ao vivo no estúdio Edgar Proença, da Radio Cultura FM, com uma banda base que reúne algumas feras do novo rock paraense e de gerações anteriores, como João (Sincera), Camillo Royale (Turbo, Eletrola), Eric Alvarenga (Aeroplano), Marreta (Ovo Goro) Jayme Katarro (Deliquentes) Sandro-K (Baby Loyds)e Claudio Figueiredo (Tribo). Ao final, a Norman Bates deve apresentar três ou quatro músicas. No repertório, "crássicos" como "Beirute Está Morta" (Insolencia Publika), "Almirante Bras" (Tribo), "Embriagados na Caverna" (Baby Loyds) e "Sampa Apodrecendo" (Norman Bates).



O convite de Beto Fares provocou um redrucescimento do punk clássico dos anos 80, que coincide com a vinda da banda Cólera a Belém. Depois de 30 anos, pela primeira vez a banda paulista chega por aqui no dia 19 de março, no Açaí Biruta, com abertura das bandas Delinquentes, Likor de Xorume e Nó Cego, clássicas bandas que fazem parte da história do punk em Belém, algo tão forte quando a tradição do heavy metal.

Banda paulista Coléra toca em Belém pela primeira vez no dia 19 de março

A produção é da Xaninhos Discos (No twitter: @xaninhodiscos) com patrocínio do Curso Exemplo, da loja For Fun Street Shop e apoio da Pro Rock, Música Paraense e Fabrika Studio, entre outros apoiadores. Káká, produtor do show, tocou na banda Derci Gonçalves e representa bem um novo momento da cena hardcore em Belém. Um momento para apresentar novamente as armas deste movimento cultural que vira e mexe se agita com mais força.

sábado, 29 de janeiro de 2011

2011

O ano de 2010 foi bom, mas me faltou tempo de fazer uma retrospectiva! Sempre achei que faltavam mais repórteres culturais na cidade. O ano de 2011 trouxe muitas mudanças de cenário e, como já tinha previsto do Blog do Diego Fadul, este blog tem os dias contatos. Vou me ater a ser apenas mais um repórter do cotidiano do rock e da música paraense, as analises mais profundas não cabem aqui, cabem notas e destaques. Em breve vou colavorar com os blogs da Pro Rock e com o Portal Música Pará, projeto patrocinado pela Conexão Vivo. Aguardem as novidades.

sexta-feira, 24 de dezembro de 2010

Jingle Hell VIII



A banda Presidente Elvis já ensaio na minha casa, mas eu não tive como acompanhar o ensaio. Pelo que reza a lenda, a banda, que tem Gustavo Rodrigues nos vocais e Marcelo Damaso na guitarra (alguns dos fundadores da Dançum Se Rasgum Produciones), só toca na noite de Natal, uma vez a cada ano já tem um tempo. Como faz tempo que não encaro baladas natalinas, acho que vi dois shows da banda. Os repertórios são sempre bacanas porque a rapaziada tem ótimo gosto musical e estão sempre atualizados, inclusive com o que há de mais clássico no rock. Dudu Feijó é um guitarrista esmerado nos timbres e nas efeitos e, como toda banda que toca pouco, tem sempre, nessas apresentações, a chance de torná-las únicas. Sendo assim, creio que é uma noite merecidamente concorrida. Confira o release que me chegou por email:

Jingle Hell VIII

A festa em que Papai Noel perdeu as botas, está volta ao Café com Arte no dia 24 de dezembro, pós-ceia, com a apresentação da banda Presidente Elvis e DJs espalhados pelos quatros cantos do Café com Arte
A oitava edição do natal mais roqueiro de Belém está de volta ao Café com Arte. O Jingle Hell VIII não brinca muito de inovação, pelo contrário, se mantém cada vez mais fiel às tradições natalinas e retorna ao lugar em que foi concebido. Dia 24 de dezembro, depois da ceia natalina é hora de se divertir na Jingle Hell VIII, a festa onde o Papai Noel perdeu as botas, a dignidade, o respeitos com as renas e esqueceu onde estacionou o trenó.
No palco, a banda Presidente Elvis, formada pelos fundadores da Se Rasgum, que uma vez por ano atacam de roqueiros tocando as mesmas músicas de sempre, mas se esforçando pra parecer que é um show novo. Além das clássicas versões para músicas de The Clash, Talking Heads, The Kinks, Beatles, Lynyrd Skynyrd, Pixies, Pavement, Roberto Carlos, Júpiter Maçã e T-Rex, a banda ainda traz no repertório novas versões de Elton John, Ultraje à Rigor, Graforréia Xilarmônica e mucho mas! Formada por Gustavo Rodrigues (voz), Dudu Feijó (guitarra), Raphael Pinheiro (baixo), Marcelo Damaso (guitarra) e Jean Louis Franco (bateria).
E na pista de cima, o retornos dos DJs amigos Aloizio & Natalia (indie rock), Flávio Proença (new rave) e Fernando Souza (90’s). No Porão, a diversão fica com os DJs Marcel Arede (rock, bagaceira e pop sem vergonha), Marcelo Papel (clássicos 70, 80 e 90) e a dupla Vandersexxx , de Marcos e Vinícius (indie, 90s etc.)
A rockada natalina começa a meia-noite, logo depois da ceia, da troca de presentes avacalhados, depois que as crianças dormirem e as tias forem pra casa “já com sono daquele vinhozinho”.

SERVIÇO
Jingle Hell VIII
Banda: Presidente Elvis
DJ's: Aloizio e Natália, Marcel Arede, Flávio Proença, Fernando Souza, Marcelo Papel e Vandersexxx.
Local: Café com Arte (travessa Rui Barbosa, 1437)
Ingressos: 15 dinheiros até 1h / 20 dinheiros após

quinta-feira, 23 de dezembro de 2010

Músicos definem novo rumo em Minas

Uma "banda" da RMB reunida em Minas Gerais, onde foi escrita a Carat de Belo Horizonte

Um das coisas mais importantes que aconteceram na última Feira Música Brasil não esteve nos palcos, apesar dos ótimos shows que aconteceram em Belo Horizonte entre os dias 8 e 12 de dezembro. Otto, Andreas Kisser e uma turma boa de mineiros, Mestre Vieira, Iva Rothe e Pio Lobato e B Negão fizeram alguns dos ótimos shows que assisti por lá, mas quem foi à Feira para aprimorar-se pensando no futuro do negócio e da política cultural do país estava de olho mesmo em outra movimentação.

Nesse sentido o grande momento foi a consolidação da Rede Música Brasil, uma entidade formada pelos principais agentes da cadeia produtiva da música brasileira hoje, principalmente aquela não diretamente ligada à grande indústria das multinacionais. Essa rede hoje é formada por 18 associações, fóruns e coletivos de amplitude nacional como Circuito Fora do Eixo, Associação de Rádios Públicas do Brasil (Arpub), Música Para Baixar (MPB), Associação Brasileira de Festivais Independentes (Abrafin), Fórum Nacional da Música (FNM) e Colegiado Setorial de Música (CSM), entre outras (veja lista completa abaixo da Carta de BH).

No próximo dia 13 de janeiro, a RMB deve se reunir no Rio de Janeiro para a primeira reunião sem que tenha sido convocada pela Fundação Nacional das Artes (Funarte), órgão do Minc que tem gerenciado os investimentos públicos federais no setor. A RMB tem como objetivo principal nesse momento pautar a próxima Ministra da Cultura, Ana de Hollanda, das demandas do setor, aprimoradas e afinadas em uma semana de conversas e negociações durante a Feira Música Brasil.

Resultados práticos da FMB 2010 foram a escolha da executiva nacional do FNM, que saiu reestruturado depois de várias manifestações críticas e muito criticadas dentro da rede, que alegava não ter o FNM um direcionamento coeso de suas proposições. Isso acontece (ou acontecia) porque o FNM reúne músicos de todo o país, que passaram a debater depois da convocação da câmara setorial de música em 2005 pela Funarte, quando esta fundação tinha a frente do Centro de Música exatamente a futura ministra Ana de Hollanda.

Fazem parte da nova Executiva Nacional do Fórum Nacional de Música, eleita em Belo Horizonte, Makely Ka (MG), Naldinho (AL), Du Oliveira (GO), a paraense Gláfira Lobo, representando a região Norte, e o músico e pesquisador paranaense Téo Ruiz, que coordena a comitiva e terá a responsabilidade de conduzir as negociações e conversas do FNM com o novo ministério.

Outra banda da RMB, representantes da Arpub, Federação das Cooperativas de Música, MPB e CFE

Durante a última reunião da RMB, em BH, a Abrafin também anunciou a próxima nova diretoria da entidade. Fabrício Nobre, dos festivais Bananada e Goiânia Noise, atual presidente, e Pablo Capilé, coordenador do Calango, atual vice-presidente, deverão ser substituídos por Tales Lopes, do coletivo mineiro Goma, e Ivan Ferraro, da Feira da Música de Fortaleza.

Outra diretriz importante tirada da RMB, foi da reunião do Circuito Fora do Eixo com a delegação Norte, que integra tanto o CFE quanto o FNM. As duas entidades, que ocupam também o Colegiado Setorial de Música e andaram se estranhando nas listas e fóruns on line, fizeram um pacto de não agressão e de cooperação que deve evoluir, segundo Pablo Capilé, para uma pauta mais efetiva das questões amazônicas dentro da RMB.

Esse foi sem dúvida um momento de suma importância para a nova música brasileira. Seus frutos serão provados e aprovados em breve. E o Pará e região Norte esteve bastante representando nele. Veja mais detalhes no blog da Pro Rock.

Segue abaixo o texto integral da Carta de Belo Horizonte.

CARTA DE BELO HORIZONTE
Reunidos em Belo Horizonte, durante a III Feira Música Brasil 2010, as entidades componentes do Conselho da Rede Música Brasil, principal interlocutor hoje do segmento da música brasileira com o poder público, reconhecem que houve muitos avanços, nos últimos 04 anos, em busca da consolidação de uma política pública estruturada e estruturante para o setor.
A Carta do Recife, em dezembro do ano passado, foi um marco neste sentido, quando sociedade civil e governos se uniram na busca das soluções para os diversos gargalos da cadeia da música. Reconhecendo que muito foi feito, mas que ainda falta muito a conquistar, elaboramos hoje uma pauta que é a expressão do que pensam e reivindicam as principais entidades deste Conselho.

10 PONTOS FUNDAMENTAIS PARA UMA POLÍTICA PERMANENTE PARA A MÚSICA NO BRASIL

1- Agência
A Criação da ANM - Agência Nacional da Música continua sendo um ponto fundamental para que este desenho possa se materializar numa política de Estado.

2- Fomento
Consolidar e ampliar o Fundo Setorial da Música integrado ao Fundo Nacional de Cultura. Lutar pela plena aprovação e posterior implementação do Pró-Cultura e participação efetiva na regulamentação do Fundo Setorial da Música;

3- Marcos Regulatórios
Estabelecer um novo marco regulatório trabalhista e previdenciário e desonerar a carga tributária para o setor criativo e produtivo da música.

4- Direito Autoral
Após encerrada a consulta pública, avançar na revisão da Lei de Direito Autoral e trabalhar pela sua aprovação.

5- Formação
Regulamentar imediatamente a Lei 11.769/2008 que institui a obrigatoriedade do ensino de música nas escolas e dar continuidade em todas as macro-regiões aos seminários de discussão sobre a sua implementação.

6- Mapeamento
Promover o mapeamento amplo e imediato de toda a cadeia criativa e produtiva da música. Incluir o setor da música na matriz insumo-produto utilizada pelo IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística).

7- Comunicação
Garantir a execução da diversidade da música brasileira nos meios de comunicação e fortalecer as redes de emissoras públicas, comunitárias e livres, como canais de divulgação da música brasileira. Criação e fortalecimento dos conselhos de comunicação nas três esferas governamentais;

8- Redes
Estimular e fomentar a formação e organização de redes associativas no campo da música, pautadas nos princípios da economia solidária. Atribuir á Feira Música Brasil e as Feiras Regionais de Música papel crucial na interligação entre as diferentes redes, incluindo os parceiros internacionais, o mercado e as instituições.

9- Circulação
Consolidar, fortalecer e fomentar ações de circulação através das redes de festivais, feiras, casas e espaços de apresentações musicais em sua diversidade. Criar mecanismos que assegurem divulgação, acesso do público aos espetáculos e formação de plateias.

10 - Exportação
Criar um escritório de exportação da música brasileira para fomentar às ações existentes, assim como regulamentar os mecanismos legais para a exportação.

O CONSELHO DA REDE MÚSICA BRASIL É COMPOSTO PELAS SEGUINTES ENTIDADES:

ARPUB,
ABEART,
Academia Brasileira de Música
ABRAFIN,
ABEM, (editoras de música)
ABEM, (ensino de música)
ABPD,
ABMI,
Circuito Fora do Eixo,
CUFA,
MPBaixar,
Fórum Nacional da Música,
Federação das Cooperativas de Músicos,
Casas Associadas,
BM&A,
Fenamusi
UBEM
Colegiado Setorial de Música

segunda-feira, 13 de dezembro de 2010

Sistema nervoso central

A máquina perfeita. Era proibido fotografar, mas a pirataria é como o cancer. Quando menos você espera, ela se manifesta.

Por Elielton Amador

Num único momento de distração dentro da longa semana que passei em BH, discutindo, reunindo e fazendo negócios na Feira Música Brasil, fui ao Shopping Boulevard ver a exposição sobre o corpo humano que roda o mundo. Era uma oportunidade rara e meu amigo João de Deus queria vê-la. Ocuparia não mais que duas horas da nossa manhã e seria um importante instrumento de conhecimento geral, que, segundo ele, sabiamente, é importante para o desenvolvimento de qualquer profissional.

Lá fomos nós para a exposição. R$ 40, suados, para ver corpos dissecados, cérebros expostos em tridimensão, alguns com marcas de hemorragias de AVC, pulmões negros consumidos pelo tabaco, e as várias fases de desenvolvimento de um embrião a feto. Além de ter os sistemas orgânicos todos muito bem explanados e compreendidos dentro de uma engrenagem perfeita. Sim, aquele clichê médico de que o corpo humano é um organismo perfeito está valendo.

A vida de hoje, com toda a tecnologia e toda a intricada rede de relacionamentos humanos, acaba por nos fazer esquecer o básico: como funciona o nosso corpo. Saber como esse organismo funciona através da integração de sistemas de funções específicas para a manutenção do todo, nos ajudaria a preservá-lo melhor, saudável.

A sensação, depois de passar pela exposição, é um misto de insegurança e de encantamento. A vontade que dá é de preservar aquele corpo o mais longe possível do câncer. Câncer que é a rebeldia das células para com o sistema do corpo. Elas parecem se negar a trabalhar para a manutenção do organismo. Muito provavelmente, são provocadas pelas agressões a que o próprio corpo é submetido.

De forma um pouco lúdica, fico imaginando, com base na teoria evolucionista, em todos os milhões de anos que bactérias e células se constrangeram e se desentenderam até gerar vidas menos complexas e gradativamente evoluíram até vir a ser este organismo perfeito.

Alguns crentes, que acreditam na inferência de Deus nesse processo, podem dizer que ele deu o sopro de vida que motivou a criação do homem à sua imagem e semelhança. Sendo assim, Deus poderia ser algo tão primitivo quanto todas essa unidades celulares, mas que, dentre elas, teve uma ideia brilhante de que se podiam se unir num único organismo, poderiam evoluir e crescer. E a sua própria imagem e semelhança lhe fez assim, cada vez mais nobre, forte e sábio diante de seus pares. Yes, we can, teria dito a célula mater.

Esta é uma parábola absurda! Mas juro que foi mais ou menos assim, associando as idéias sobre o funcionamento do corpo humano, seus sistemas interdependentes (como sistema nervoso, sistema circulatório e sistema digestivo, integrados uns aos outros numa maquina capaz de quase tudo, inclusive de gerar outras vidas), que pensei a rede que se estabelece hoje em torno da música do Brasil.

Em alguns momentos, nesse estágio mais primitivo, alguns quiseram alienar alguns dos pais dessa criança, que ainda nem saiu das fraldas, mas que agora começa a engatinhar de forma mais organizada. Consideremos seus sistemas interdependentes como as redes regionais e a rede central, que em analogia seria o nosso sistema nervoso. A gestão do MINC nesses anos teria a importância de um sopro quase divino em estimular a organização desses microorganismos, que hoje trabalham pela nova música brasileira.

Com essa breve parábola cientifico filosófica, inauguro uma série de pequenos textos a respeito das ações e diretrizes tomadas durante a Feira Música Brasil 2010, realizada entre os dias 8 e 12 de dezembro em Belo Horizonte (MG). Em especial as travadas pela delegação paraense na Feira. Sejam bem-vindos!