sexta-feira, 13 de março de 2015

O problema do "Brasil"

O problema do Brasil
Uma abordagem político cognitiva

Por Elielton Alves Amador

“O problema do Brasil são os políticos”. Pensando bem, não, “o problema do Brasil é o povo”. Afirmações performáticas como estas, que há muito tentam explicar nossos problemas, resumem a visão rasteira sobre as dificuldades da sociedade brasileira. Afirmações como estas estão na mesma base radical daquelas que dizem que “bandido bom é bandido morto”, muito repetida, por exemplo, por deputados policiais com formação filosófica ou sociológica zero; mas também estão na mesma origem de afirmações como a que diz que a “classe média é uma aberração cognitiva”, repetidas por doutores filósofos de carteirinha partidária.
O problema do Brasil, quando deixarmos de tentar explica-lo de maneira simplista, será muito mais complexo do que se imagina. Só de pensar, dá preguiça de continuar esse texto. Coisa de intelectual brasileiro.
Mas o fato é que o Brasil vive em guerra cognitiva. O Brasil é multipolar. A guerra civil ou o golpe de estado anunciados no wathsapp podem não ocorrer, mas não duvide. O que parece também é.
Aldous Huxley teve uma viagem de ácido e afirmou ter entendido que a droga era uma estratégia da Rússia para acabar com o “espírito americano”. Tive uma viagem pelas redes sociais e quase descobri que a droga pode ser uma estratégia dos EUA para implodir o “espírito brasileiro”.
O Brasil pode ser multicultural, diverso culturalmente e o caralho a quatro, mas o Brasil não é o centro do mundo, e precisa se ver como um projeto de nação, que nunca foi. Ou não, mas precisa se ver em alguma coisa que todos tenham a mínima noção do que seja. Porque não sendo o centro do mundo, o Brasil precisa ter uma política internacional. Mas para isso precisa saber o que é sua casa. Mi casa, su casa.
O Lula não é “burro”. Ele está mais para um “esperto”. Quem passou pelo que ele passou tinha que desenvolver capacidades cognitivas e persuasivas. Mas ele parece sincero, desenvolveu um carisma mesmo quando mente. Dilma mente sem carisma. Sem persuasão, ganha a ojeriza da classe média de baixa cultura e baixa cognição, que eles não são burros.
Talvez você diga que a presidenta não mente. Mas a mentira dela consiste em uma meia verdade mal dita.
O Lula fez o Brasil crescer explorando a cognição do status quo. O status quo brasileiro! Sacou o que o pobre queria e o que o empresário queria. Um queria comer e comprar geladeira, carro, fogão. O outro queria vender. Durante um tempo isso sustentou a ilusão de crescimento e desenvolvimento social. Mas a educação (afinal somos agora uma “pátria educadora”) ainda não conseguiu elevar a percepção do povo brasileiro.
Um homem educado, é que nem um homem nu, todo vestido por dentro, diz Emicida. É isso! A riqueza de um povo não está no que ele pode comprar. E uma nação com tanta diversidade, tanta desigualdade social e econômica, não pode se equilibrar sem uma guerra entre as classes dominantes e dominadas, mesmo que essa guerra seja simbólica e virtual.
O pelego não vai segurar essa onda se o cavaleiro não aliviar o lombo do burrito. Entendeu?! Ou não entendeu? Como diria um antigo editor meu, “então, vai pensado, quem sabe um dicionário ajude.”
Uma nação como o Brasil, já disse Celso Furtado, não pode achar que seu desenvolvimento será pautado exclusivamente pela ilusão do crescimento econômico. Mas todo dia nos jornais o “pibinho” do Brasil é achincalhado pelos especialistas de coisa nenhuma e pelos jornalistas que não entendem nada. Fazem o jogo dos patrões e só! A comunicação do PT não consegue desconstruir essa ideia. Ou porque acha que o povo é burro e não vai entender. Ou porque ele mesmo não entende. Entende somente a lógica empírica, da política desenvolvida por Lula, de alianças e estratégias de manutenção do poder e do status quo.
E o PSDB? Bem, talvez o FHC tenha entendido alguma coisa. Dizem que ele andou dando uns tapas na pantera preta da marijuana e isso lhe abriu a mente. Mais ninguém mais do lado dele quis compreender ou compartilhar esse baseado. Aécio só quer saber de cafungar, deixou a barba crescer pra tentar confundir certas noções de “esquerda/direita”. Coitado!
E ensinar...?! Além da preguiça, FHC ainda tem que preservar as vantagens de estar onde esta. E não preciso dizer mais nada. Ou preciso?!
Tem saída? Não. Não em um partido. As pessoas têm que se olhar no olho e conversar, ir à aula, ao trabalho... e conversar. Ler um livro e pautar a televisão e os jornais. Com seus problemas reais e os problemas comuns. Para entender o problema comum tem que ter comunicação! É pra isso que serve! Não pra mascarar o interesse de uns.
Tem que limpar a calçada e ligar para o prefeito cobrando. Não interessa se ele é do seu partido ou se ele emprega a sua sobrinha, que não estudou, e não conseguiria, por mérito próprio, nem um estágio na iniciativa privada, sem QI.
Não sei de onde virá a solução, mas eu sei que essa virtualização da vida nos tira a concentração. A gente tem que botar o pé no chão e sentir o território. Se proteger do frio e da fome, e, ao mesmo tempo, fazer crescer o mundo das ideias na nossa cabeça. Quem sabe assim o “Brasil” que todos acham grande em suas “ideias”, em sua “percepção”, seja, enfim, tão grande quanto seu território. Até lá, muitas batalhas serão travadas. Parece. 

terça-feira, 13 de maio de 2014

Entre o afeto e a política nas eleições do Sinjor-PA

O texto a seguir foi publicado originalmente no site da Chapa #Soumaissinjor que concorre à direção do Sindicato dos Jornalistas do Estado do Pará (Sinjor-PA). Ele pode ser lido no original AQUI.

Integrantes da Sou Mais Sinjor, que integro. Foto: Tarso Sarraf

Meu amigo Anderson Araújo escreveu um texto muito ponderado sobre as eleições do Sinjor-PA que estão em curso. Ele declarou neutralidade (você pode ver o texto aqui). E, veja bem, eu não comecei esse texto dizendo que o jornalista Anderson Araújo é meu amigo para tentar colar nele a figura da chapa 01 “Sou Mais Sinjor”, que integro. Esse começo “afetuoso” tem um motivo e vou explicar. Antes, porém, quero lembrar que temos (nós, jornalistas paraenses) um colega colunista que sempre começa seus textos dizendo que esteve na casa de um ou mais amigos, ou que compartilhou com eles uma opinião sobre determinado assunto, antes de falar sobre o tema de sua coluna. Penso que isso tem a ver com a necessidade afetiva que transborda nas redes sociais e fora delas. Falo e começo meu texto com esse recurso para observar um dos pontos frisados, de maneira franca, mas sutil, no artigo do Anderson. Trata-se exatamente da questão afetiva.

O grande professor Muniz Sodré tem uma aula registrada e postada no Youtube muito boa sobre o tema da diversidade cultural, que está em voga também nessas eleições, e também de maneira quase subliminar, a partir do slogan adotado pela chapa 2 (Sindicato é pra lutar). “Somos plurais, somos chapa 2”, diz o texto. Ele brinca com o número da chapa e com a diversidade cultural dos membros da mesma. Trata-se obviamente de um recurso discursivo muito bem bolado, ainda que eu duvide de sua eficiência publicitária.

Pois bem, vocês podem acessar a magnífica aula de Muniz Sodré neste link. Mas posso resumir a questão dizendo que Sodré observa que a diferença, motivo intrínseco da diversidade, está dada entre os homens. Ela não precisa ser “reconhecida”, no sentido de que precise ser observada, anunciada. A diferença entre os homens e mulheres esta dada, sempre existiu. Os espécimes humanos (não se trata de uma questão de gênero) são diferentes. São diferentes mesmo entre etnias comuns, mesmo entre povos diferentes, entre classes, entre gênero, enfim. Imaginem vocês, então, entre uma categoria tão plural quanto a dos jornalistas.

Digo isso de antemão para derrubar o pensamento que, por oposição, chegasse à conclusão falaciosa de que a chapa 01 “Sou mais Sinjor” não seria plural ou tão diversa quanto a chapa 02 (Sindicato é pra lutar). A diferença está dada, como ressalta Muniz Sodré. Ou, como diria aquela canção da banda paraense Norman Bates, em que toquei por 15 anos, “A diferença soma, a diferença é nós, a diferença é voz.”

Sodré ressalta que a diferença não precisa de reconhecimento, e critica os estudiosos culturalistas pelo reconhecimento distante das diferenças. Um eruditismo inócuo, segundo ele. A diferença precisa ser aceita. E aceitar a diferença evidencia a necessidade de exercitar o afeto, pois é o afeto que permite se misturar ao diferente. Então, chegamos a mais uma questão. A questão principal eu diria.

Anderson assim como eu, certamente,  tem muitos amigos tanto na chapa 01 quanto na chapa 02. E, além de estar distante, preferiu não manifestar apoio a uma ou outra chapa porque isso provocaria o afeto dos amigos, e dos “não-amigos”, que não somos também unanimidade. Coisas da sociedade das redes sociais, tão carente de afetos.

Uma coisa não tão clara na palestra de Muniz Sodré, mas que fica mais evidente, por exemplo, em trabalhos como o do sociólogo francês Michel Maffesoli, é que o afeto não implica simplesmente em uma relação de harmonia, de amor, de amizade ou de qualquer conceito que defina uma condição pacífica, sem conflitos. Diria um psicólogo amigo meu (outro amigo, vejam como sou querido!), que o afeto é aquilo que te “afeta”. Algo que te afeta pode promover sensações incríveis de bem-estar, mas também pode provocar extremo desconforto, e condições de grande conflito. Se o ser humano é diferente por natureza e se já tem tantos conflitos internos, dele com ele mesmo, imaginem se não teria conflitos entre comuns. Fossem amigos ou inimigos. Aquela música “Entre tapas e beijos” traduz bem o que é uma condição de afeto. Principalmente um afeto corrosivo, complexo e transtornado.

Aquém (ou além) da questão afetiva, que se manifesta de forma evidente no texto de Anderson quando ele se refere, por exemplo, a certa “animosidade intrínseca” do início do debate entre as chapas, está uma questão política. Ao ponderar que apesar dos afetos (e apesar do mea culpa que Anderson faz pela sua omissão como delegado sindical), ele espera “organização” e “ganhos políticos” para a categoria, de qualquer que seja a chapa vencedora, Anderson expõe a necessidade de uma prática política elevada, altruísta, uma prática que os instintos afetivos parecem obscurecer nessa campanha. A política, como sabemos, é a arte da convivência entre os diferentes. A política é reflexão prática. E penso (e agora sou eu quem está dizendo) que essa obscuridade política fica evidente nos ataques sistemáticos com que a chapa 2, oposição a atual diretoria do Sinjor-PA, iniciou sua campanha. Enquanto reviso este artigo eles insistem em atacar diretores do Sindicato. Tristemente.

Um bom observador nota o que EU, eu mesmo, estou dizendo. Um grupo de valores inquestionáveis como é a chapa de oposição à atual diretoria do Sinjor, que, por sua vez, teve obviamente seus defeitos (e refletiu a omissão da categoria em certa medida, e isso já foi dito por pessoas de fora das duas chapas nos debates que se seguiram nas redes sociais), não se pode deixar de notar que foram as emoções exacerbadas pela violência trabalhista cometida contra o grupo que se autointitula “Gatos Pingados”, força motriz juntamente com a diretoria do Sinjor-PA da greve do Diário do Pará, que proporcionaram essa oposição “chapa quente”. A cada novo ataque, esse grupo soa como se fosse um bando de cães raivosos, ao invés de gatos malandros e dóceis. Antes que os ataques recomecem, notem que uso essas expressões de maneira figurativa, para demonstrar um comportamento equivocado ou malicioso, não quero pré-julgar ninguém (mas também não sejamos ingênuos). Não somente por causa da campanha, mas como muito bem frisou Anderson, pelo pós-campanha.

Se fossemos falar sobre política, além da afetividade, talvez atiçássemos ainda mais os afetos, ou os ânimos. Mas o fato é que, politicamente, para não ficar bancando o erudito e citando autores, é preciso pensar em um projeto sindical. Não somente em um “movimento sindical”. A categoria dos jornalistas faz parte de um campo social (refiro, sim, a Bourdieu) muito forte, que está ligado às estruturas de poder hegemônico e precisa pensar o sistema de dentro dele. Não podemos neste campo, a meu ver (e isso obviamente é a opinião de um observador político, crítico, plural), agir com os afetos predominando sobre a reflexão crítica (os gregos diziam que a crítica é a arte do discernimento). Pessoas enfurecidas, sob forte efeito da emoção, não são capazes de discernir. E isso não as faz piores. É humano. Assim como é humano a capacidade de superar a emoção. E pensar, como Habermas, em uma ação comunicativa. Por isso, que não reste dúvidas, Sou mais Sinjor. Porque nossa união não exclui a diferença. A diferença, sempre existirá. Nossa união é calcada na reflexão crítica, no discernimento.

Por fim, mais uma vez, preciso frisar que não quero colar na figura do Anderson. Usei esse recurso discursivo para me fazer compreender, a partir de uma prática didática e dialógica (e quem sabe bem-humorada), a dimensão das questões aqui envolvidas. Como qualquer colega que tem opinião própria não espero que o Anderson seja unanimidade para que eu possa capitalizar votos de nossa amizade (como já disse, ele e eu, diferentes, temos muitos amigos, ou não, em comum em ambas as chapas). Muito menos pretendo ser unanimidade em qualquer campo. Quero, sim, ter a oportunidade de pensar e refletir sobre as nossas condições e propor alternativas. E que violência ser atacado por isso.

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Elielton Alves Amador é graduado em Jornalismo pela Universidade Federal do Pará (UFPA) em 1999, é especialista em Comunicação e Política nos Órgãos Públicos (Unama/2009) e Mestre em Ciências da Comunicação (UFPA/2014). Foi repórter do jornal O Liberal, colunista, repórter e editor do Diário do Pará. Atuou em assessorias de imprensa, como a Secretaria de Estado de Educação (Seduc) e Universidade do Estado do Pará (Uepa). Também foi assessor na Secretaria de Estado de Comunicação (Secom) e outros órgãos estatais. Atuante na área da cultura, já foi delegado setorial e presidente da Associação Pró-Rock. Também é músico e editor do site Pará Música (paramusica.com.br), colabora com revistas paraenses e assessora artistas e empresas na área cultural.

sexta-feira, 23 de agosto de 2013

Mariana pelo baile brega da saudade

Um desses casais no salão tem como par a atriz Mariana Rios

Muita coisa importante sobre a qual gostaria de blogar. Mas o tempo e a complexidade dos temas não têm me dado essa oportunidade. O olhar acadêmico tende, pelo menos nesse momento, a frear conclusões apressadas, análises superficiais etc. Mesmo assim, o olhar jornalístico obriga a publicidade mesmo que seja em “aberto”. Mas nesse momento vou me permitir uma “futilidade”. Ontem estive n’A Pororoca, tradicional casa de baile de Belém, acompanhado da produtora e cantora Gláfira Lobo que deu de presente o passeio pelo Baile da Saudade do Poderoso Rubi à produção do filme “Órfãos de Eldorado”, que está sendo rodado na cidade sob a direção de Guilherme Coelho. Acompanhamos, juntamente com o guitarrista da banda Madame Saatan, Ed Guerreiro, os atores Mariana Rios e Daniel Oliveira, além do diretor e da preparadora de elenco Maria Silvia, entre outros membros da produção. Durante 10 minutos, Mariana soltou-se a dançar o brega no salão, chamando a atenção de todos os convidados e presentes. Fez “a festa” dos fãs que logo formaram discreta fila para bater fotos com a moça.  Depois de um tempo, Mariana, muito solicita e atenciosa, se retirou com a equipe para o camarim VIP da casa oferecido pelo próprio dono do local. Enquanto isso, Guilherme Coelho fez abordagens no salão para selecionar figurantes para uma cena que vai se passar exatamente em uma gafieira. A visita fez parte da preparação de Mariana, que é protagonista da cena que vai acontecer na gafieira. Anteontem, o próprio escritor amazonense Milton Hatoum, autor do livro que deu origem ao roteiro,  esteve em Belém para filmar uma participação na película. 


Paciente e simpática, a atriz interrompeu a dança para atender aos fãs

sábado, 29 de dezembro de 2012

Ministério da Cultura realiza encontro e renovação dos colegiados setoriais

Soft Power: A ministra Marta Suplicy
na abertura da reunião dos "Fóruns
 Setoriais", em Brasília.
Os Colegiados Setoriais de Cultura, instâncias consultivas que compõem o Plano Nacional de Cultura (cuja instância superior é o Conselho Nacional de Políticas Culturais – CNPC), tem nova configuração desde o último dia 15 de dezembro quando encerraram as reuniões convocadas em Brasília pelo Ministério da Cultura. Neste texto pretendo registrar os fatos mais importantes ao processo, principalmente, aquilo referente ao Colegiado Setorial de Música (CSM), do qual fiz parte como membro nato desde 2005 e do qual me despedi este ano deixando novos colegas no lugar. Também registro as falas da nova ministra da Cultura, Marta Suplicy, e do presidente da Funarte, Antonio Grassi, que esteve presente à reunião do CSM.
O encontro reuniu cerca de 450 delegados de todos os 17 colegiados (Design, Música, Teatro, Culturas Populares, Dança, Artesanato etc.), eleitos em processo eleitoral pela internet – onde a dificuldade do sistema criado pelo Minc e a burocracia exigida eliminou mais da metade dos eleitores aptos a votar e muitos candidatos. Essa dificuldade, fora as dificuldades de locomoção e passagens de muitos delegados, foi um dos principais motivos de críticas dos delegados na cerimônia de abertura, onde o diretor do departamento de participação social da Secretaria Nacional de Articulação Social da Secretaria Geral da Presidência da República, Pedro Pontual, falou sobre democracia participativa e democracia representativa, e expôs as ações do governo federal para promover a participação popular no processo de decisões em várias instâncias.
Apesar da boa vontade demonstrada por Pontual e o Secretário de Articulação Institucional, João Roberto Peixe, as críticas se sucederam até que eles não tivessem mais tempo de responder, pois havia acabado o tempo e era a vez da cerimônia com a participação da ministra. Além dos delegados, havia observadores como a antropóloga Lorena Avellar, que prepara a tese de doutorado na USP sobre políticas públicas na área cultural.
Uma das críticas que também ressoaram no salão do Centro de Eventos e Convenções Brasil 21 foi a da delegada paraense Edna Marajoara, que reclamou da falta de institucionalização do “custo amazônico” nas diretrizes do Plano Nacional de Cultura por parte do CNPC. Produtores, artistas e gestores criticam veladamente o conceito por acharem ora uma forma de privilegiar a região amazônica sobre as demais, ora por dizerem que não sabem exatamente do que se trata esse custo.
Fato é que o custo amazônico foi aprovado como diretriz por grande número de votos na última Conferência Nacional de Cultura, dois anos atrás. Apesar disso, o CNPC não validou a institucionalização do conceito – apesar do Minc ter iniciado um programa compensatório com o edital para micro projetos culturais para a Amazônia Legal. A defesa de uma política de desenvolvimento artístico e cultural para a Amazônia foi defendida e tem sido reiterada pelos representantes do Fórum Permanente de Música do Pará como eu,  Augusto Hijo e Gláfira Lobo, além de muitos outros representantes que vem participando do processo de construção de uma política nacional de cultura desde 2005, quando foram criadas as câmaras setoriais. Considero-o, antes de um conceito econômico, um investimento e uma compensação pela exploração dos recursos naturais e pela omissão histórica da cultura regional como parte de suposta identidade nacional. Se falarmos de soft power, como explicitaremos mais adiante, o potencial é grande. Sem negar, de forma alguma, a contribuição que a cultura das demais regiões dão ao país.
No final, não obstante as críticas, delegados e gestores pareceram chegar a um consenso em que, apesar das falhas, a participação democrática tem sido, na maioria dos casos e a despeito das mudanças promovidas pela ministra anterior, favorecida pelo Minc. Pelo menos a impressão que tivemos é que o carisma e a desenvoltura política da nova ministra Marta Suplicy traz mais segurança ao setor.
  

O soft power de Marta Suplicy


A ministra recebeu de presentes
um Búfalo de balata, tipo de látex
 que só dá nas seringueiras do Marajó. 
A abertura oficial da reunião dos colegiados setoriais de cultura (chamados erroneamente pelo próprio Minc de Fóruns Nacionais Setoriais) ocorreu pela parte da noite do dia 13 de dezembro, depois das palestras dos gestores e das críticas dos delegados, com a participação da ministra Marta Suplicy e de mais duas mulheres: Rosa Coimbra, representando a participação da sociedade civil no CNPC, e a deputada Dorinha Seabra Resende, representando a frente parlamentar em defesa da cultura e a comissão de educação e cultura. Silvestre Ferreira, da Fundação Cultural de Joinville e presidente do Fórum Nacional dos secretários de dirigentes municipais de cultura das capitais e regiões metropolitanas, completou a formação da mesa.
Rosa Coimbra reiterou o apoio do CNPC ao governo, apesar de ressaltar que nem todas as demandas tem sido atendidas. Dorinha falou sobre a frente parlamentar, que é suprapartidária e tem conseguido mobilizar muitas questões dentro do Congresso Nacional como a aprovação recente do Vale Cultura, que chegou a ser anunciado ainda no governo Lula mas que ainda depende de regulamentação. Ferreira empenhou apoio dos secretários.
Mas a fala que todos aguardavam mesmo era a da ministra, que imprimiu um tom descontraído e informal ao seu discurso. “Eu estou aqui, conversando com vocês, esperando que a gente possa, junto, entender melhor o processo”, dizia ela.
Marta falou da marca que quer imprimir à sua gestão. Ressaltou as dificuldades de execução de orçamento e de falta de interação política e institucional da pasta, e contou como tem contado com apoio da frente parlamentar, do presidente do senado José Sarney e da equipe do ministério, que pouco se alterou com a sua chegada recente. “Demos sorte que ele também é da área”, disse, relembrando a verve literária do ex-presidente da República e ressaltando a importância dele nas articulações políticas para a aprovação do Vale Cultura, que ainda depende do convencimento das empresas que podem ou não adotar o sistema.
O contingenciamento orçamentário da pasta e a falta de habilidade das organizações culturais com a gestão financeira dos projetos foram apontados pela ministra como algumas das dificuldades de implantar uma marca forte. Mas ela anunciou orgulhosa que àquele momento o ministério chegava ao recorde de 96% de execução do próprio orçamento.
Falou que o ministério vai implantar os projetos mesmo que as organizações culturais não tenham fôlego e convocou os municípios e as instituições a pedirem ajuda se for preciso. “Se não tiver produtor capacitado para executar os projetos, nós vamos até lá”, ressaltou a ministra. O anúncio parece coincidir com o edital de seleção de 114 produtores culturais para trabalhar no ministério lançado recentemente.
Mas foi quando falou da implantação dos CEUs das Artes no exterior que Marta Suplicy reiterou a vocação de sua gestão para o desenvolvimento integrado entre a economia criativa e a educação. Para quem não sabe, os CEUs são “centros unificados” que nasceram do conceito dos Centros Educacionais Unificados, implantados por Marta quando foi prefeita de São Paulo. A cidade conta hoje com mais de 40 CEUs que oferecem educação integral, esportes, assistência e cultura aos alunos da periferia. Marta já começa a implantar CEU’s pelo Brasil e contou como a prefeitura de Lisboa, em Portugal, lhe ofereceu um terreno para a construção de um CEU lá, disseminando a cultura brasileira. “Quando chegamos na França, o embaixador disse que já sabia que nós íamos construir um CEU em Portugal e perguntou porque não fariam o mesmo em Paris. Eu disse que não tínhamos perna para isso, e eles nos ofereceram também um terreno para implantar um CEU em Paris, e agora temos mais um CEU para implantar na Europa”, disse a ministra.
Ela mesma contou das críticas a respeito de investir dinheiro da cultura no exterior e disse que era importante, que era soft power. “O pessoal da economia criativa sabe do que estou falando”, afirmou a ministra.
A partir da página 12 do livro “Mainstream – A guerra global das mídias e das culturas” (Civilização Brasileira, 2012), o sociólogo francês Frederick Martel, um entusiasta das indústrias criativas, explica o conceito de soft power através do cientista político americano Joseph Nye, então presidente da Kennedy School, “a prestigiosa escola de ciências politicas e diplomacia” sediada em Harvard. Nye analisou a “interdependência complexa” das relações entre os países numa época de globalização e inventou o conceito de soft power, que serve ao governo de Barak Obama atualmente. Consiste em uma estratégia de sedução que dá poder e está baseada na cultura e não mais na força militar, o hard power. Segundo o cientista, “o soft power também é a influência por meio dos valores como liberdade, democracia, individualismo, o pluralismo da imprensa, a mobilidade social, a economia de mercado e o modelo de integração das minorias nos Estados Unidos.”
Assim, temos uma ideia do que será a marca de Marta com os CEUs – em que ela pediu para não economizar, pois, segundo ela, é com instalações e equipamentos de ponta que a prática das artes deve se desenvolver entre os jovens.



A renovação do colegiado de música



Delegação Norte do Colegiado de
Música: Nicolau, Wertemberg ,
Hijo e Luciano Souza.
Dada a dificuldade de participação pelo processo eleitoral implementado pelo Minc, praticamente ao mesmo tempo em que a ex-ministra Ana de Hollanda caia e ascendia Marta Suplicy, muitos dos 17 colegiados setoriais ficaram incompletos. Cada colegiado é formado por 30 membros, sendo 15 titulares e 15 suplentes. O colegiado setorial de música contou com a participação efetiva durante as discussões e o processo eleitoral de 32 delegados e membros natos – aqueles que participam do processo desde a implantação das câmaras setoriais em 2005. Destes, quatro membros natos em segundo mandato não poderiam participar da renovação dos colegiados, entre eles o mineiro Makely Ka, o goiano Du Oliveira, o representante do Paraná  Manoel Souza Neto e eu. Apesar disso colaboramos substancialmente para a fluidez do processo, acredito.
Assim sendo o processo eleitoral tomou início, não sem antes o ator Antonio Grassi, atual presidente da Fundação Nacional das Artes (Funarte), braço institucional do Minc que organiza os colegiados/câmaras desde 2005, receber e responder a algumas críticas. Tudo parte do processo democrático, que eventualmente demonstra alguns gargalos políticos setorizados ou talvez regionalizados.  Grassi respondeu principalmente sobre a desarticulação da Rede Música Brasil e a ausência da Feira Música Brasil, e de algumas feiras regionais. Aceitou a sugestão de Makely Ka para construir um Seminário Nacional da Música.
De volta à reconstituição do colegiado, como não havia delegados suficientes para uma disputa mais acirrada, alguns membros natos tentaram mais uma vez repetir o consenso promovido por amplas discussões entre o Fórum Nacional da Música e o Circuito Fora do Eixo na última pré-conferência nacional de cultura, em 2010, onde foram eleitos os delegados que agora deixaram o cargo. Esse “consenso” encontrou, na minha opinião, muitas dificuldades de ser executado e acabou por colaborar por um esvaziamento do FNM e um afastamento do CFE depois que Juca Ferreira deixou a pasta sendo substituído por Ana de Hollanda. Nesta reunião havia três membros do Fora Eixo, inclusive Ney Hugo, ex-baixista da banda Macaco Bong, que atualmente conduz os trabalhos do coletivo no Rio Grande do Sul.  
Grassi, da Funarte, rebatendo
críticas. Ele prometeu Seminário
Nacional de Música
O rodízio entre titulares e suplentes foi a priori mantido mas é um acordo entre os delegados, que depende deles e não do Minc. Dessa forma, sugeri que seguíssemos a proposição do CNPC e elegêssemos primeiramente as representações regionais, já que cinco dos 15 titulares do colegiado são representantes regionais. Cada região, então, se reuniu e elegeu seus representantes. A região Centro-Oeste contou com apenas uma representante em todo o colegiado, a produtora Alexandra Capone, irmã do saudoso Tom Capone. A região Norte teve apenas três representantes aptos no processo: o paraense Augusto Hijo e Wertemberg Nunes e Luciano de Souza, ambos do Tocantins (O Pará teria mais um representante apto, o produtor Márcio Macedo, mas este não pode participar da reunião, pois as datas foram alteradas e ele tinha um compromisso em Belém com o show do Cabloco Muderno de Marco André).
O representante da região Norte escolhido foi o paraense Augusto Hijo que a princípio ficou sem suplente, assim como Alê Capone. A compositora Ana Terra, do Rio de Janeiro, foi escolhida pelo Sudeste, e o professor e compositor Ricardo Bordin foi eleito pelo Sul. Val Macambira foi o representante do Nordeste. Cada regional indicou ainda um delegado para ocupar uma vaga do colegiado representando também os setores criativo, produtivo ou associativo. A indicação da região Norte foi Luciano, que é presidente do Sindicato dos Músicos do Tocantins e participa da Federação Nacional de Cooperativas de Músicos.
Depois de escolhidos os representantes regionais foi a vez de eleger os outros cinco titulares, que foram eleitos no voto. A indicação da região Norte, o músico e produtor  Wertemberg Nunes, foi o segundo mais votando com 14 votos, atrás apenas do maestro Amilson Godoy, de São Paulo, que teve 19 votos. Atrás dele teve Ney Hugo (12 votos), Gabriel Alves (11), Aládia Quintella e José Raimundo Alves (ambos com 10 votos) – cada delegado votou em três nomes já que eram seis vagas restantes, uma vez que a região Centro-Oeste não pôde indicar outro membro.
Val Macambira e Aílson Godoy,
novos membros do CNPC, com João
Roberto Peixe, da SAI.
Por fim, depois de uma maratona de debates que incluiu a tentativa de incluir mais dois membros como suplentes que ficaram impossibilitados de chegar para a reunião por algum motivo – em geral por conta da dificuldade do próprio Minc em conseguir passagens  para todos –  o novo colegiado elegeu no voto os dois indicados ao Conselho Nacional de Políticas Culturais (CNPC). Os escolhidos foram o maestro Amílson Godoy, representando a música erudita, e o baiano Val Macambira, representando a música popular. Os suplentes ao CNPC, a câmara alta da cultura no Minc, foram, respectivamente, Luís Felipe Gama, da cooperativa de música de São Paulo, e a produtora Alê Capone.
Uma das primeiras ações de membros dos colegiados e outros agentes engajados no processo é uma reunião em janeiro, no Rio, com a direção da Funarte para a elaboração de um Seminário Nacional da Música, a que propusemos etapas regionais antecipando a ação.
Meu relato não seria completo ainda se não registrasse que houve críticas implícitas e explicitas ao modo como FNM, CFE e outras organizações conduziram o CSM promovendo certo esvaziamento do mesmo, para o que muito colaborou também a gestão conturbada de Ana de Hollanda. Principalmente Manoel Souza Neto e Malva Malvar, de Sergipe, frisaram a necessidade do CSM promover uma mobilização e um debate aberto com as bases do fóruns, sempre difíceis de mobilizar. Ações práticas como a conduzida por Val Macambira e correligionários da Bahia e por Ale Capone, juntamente com o governo do DF tem tido êxito. Acho que o novo momento também coincide com uma nova articulação do Fórum Municipal de Belém, que reúne vários membros dos colegiados. Parece um novo momento. Tenhamos esperança e vontade de trabalhar. 

quinta-feira, 29 de novembro de 2012

Cenas, textos e mesas



 A jornalista Yorrana Oliveira, produtora da revista Conecte!, do grupo Ideal, me convidou para escrever um artigo de 2 mil toques motivado pela pergunta "por que o rock paraense não conseguiu o mesmo sucesso que o tecnobrega ou as guitarradas". Disse que era uma pergunta difícil mas topei escrever sobre o conceito de cena musical do canadense Will Straw, uma vez que ele explica bem a relação sensível das cenas mais rústicas e originais como suponho ser a do rock paraense. Consegui escrever 2,9 mil toques -- a edição se encarregou de eliminar os excessos para caber na página da revista, que você pode conferir gratuitamente nos pontos de distribuição da Jokerman pela cidade. Aqui você confere a página e o texto original na íntegra. 
 Aproveito para informar que nesta sexta-feira participarei da Semana de Comunicação da Cesupa, na mesa de debate "A expansão do blog no consumo das massas", que acontecerá às 16h no Auditório da Unidade CESUPA da Alcindo Cacela, n. 1523, que fica localizada entre a Av. Governador J. Malcher e Av. Magalhães Barata. 


Cenas musicais e mercado
ou sensibilidades e articulações

O sucesso comercial raramente se confunde com a efervescência de uma cena musical. São necessários muitos fatores de mediação em favor, principalmente, do mercado para que cenas musicais locais possam ser “alçadas” a uma condição de destaque nacional em nível de mercado. Os exemplos mais clássicos são o grunge de Seattle e o manguebeat de Recife.
Convém visitar um novo conceito de “cena musical” utilizado pelo sociólogo canadense Will Straw. Para ele, a cena nasce nos afetos e sensibilidades, onde o compartilhamento da música gera a criatividade que produz efeitos sociais, econômicos e culturais em um espaço geográfico. Por exemplo, garotos que curtem rock juntos decidem montar bandas para aplacar o tédio. Essas experiências sensíveis começam a impactar as dimensões culturais, sociais e econômicas na medida em que formam identificações, mobilizam o comércio de instrumentos, estúdios etc e ocupam o espaço intersubjetivo com as imagens criativas de suas canções (em shows, rádios...).
Para caracterizar uma cena, é necessário ter sensibilidade e articulação. Ou seja, é preciso que os sujeitos dessa cena tenham uma interação produtiva, criando a efervescência cultural. Mas Straw foi criticado e teve que admitir que não somente as sensibilidades impulsionam ou retraem as cenas. Políticas públicas e fatores econômicos podem diminuir a intensidade ou criar agenciamentos políticos.
Penso que uma cena que ganha dimensões comerciais sofreu necessariamente, direta ou indiretamente, a ação do mercado, que não quer a efervescência, quer a qualidade técnica e os fatores estéticos que atendam aos padrões estabelecidos. O rock paraense, pela sua natureza instintiva, é resistente a isso.
Daí a importância do Carlos Eduardo Miranda para o Terruá Pará e o destaque da nova cena paraense. Miranda nos acompanha desde 2003. Encontramo-nos nesse ano em São Paulo e ele conhecia a minha banda, a Norman Bates, que ele declarou admirar. Mas sabia que a banda ainda tinha que ter muitos acertos para se encaixar nos padrões midiáticos ou fonográficos. O mesmo se pode dizer da Madame Saatan e de outras, mesmo as mais pop de Belém.
Questões de gênero e econômicas também podem provocar as oscilações de mercado. Pode haver um produto em falta no mercado e ele tem que ser substituído por outro. Ou o custo de um é mais barato que o outro... A construção de um mercado regional ou um novo mercado nacional que aprimore a técnica e crie novos valores estéticos da cultura de massa é uma utopia boa, vivida por quem acredita em conceitos como economia criativa e economia solidária, por exemplo. Continua sendo um caminho quando há sensibilidade e articulação.

quarta-feira, 3 de outubro de 2012

Alteridade no Intercom


A reitora da Unifor, DaMatta e Raquel Paiva na abertura do Intercom 2012
O antropólogo Roberto DaMatta proferiu a palestra de abertura do 35º Congresso Brasileiro de Ciências da Comunicação, que aconteceu no mês passado, entre os dias 3 e 7 de setembro em Fortaleza (CE), na moderna Unifor, uma das melhores universidades particulares do Brasil. O tema era futebol. O intelectual traçou diversos paralelos entre o futebol e o comportamento social do brasileiro. Não faltaram piadas e comentários divertidos. DaMatta é um entertainer. Tem o tempo da piada.
Mas quando a professora Raquel Paiva perguntou o que DaMatta achava da alteridade, da relação com o outro na sociedade. DaMatta descreveu  exemplos cotidianos como a família que anda no calçadão da praia de Iracema “em linha” evitando que outros transeuntes possam passar, ou, no trânsito, quando alguém para para conversar em plena via pública impedindo os demais transeuntes de transitar.
Os dois exemplos mostram a necessidade urgente de ir e vir, e, apesar da preocupação com esse direito não deixar de ser uma alteridade, está longe de direitos mais elementares com os quais a sociedade, cada vez mais individualizada, parece não se importar.
É por isso que a própria Raquel Paiva colocou a alteridade no centro das discussões do próximo Intercom, que vai acontecer em Manaus em 2013. O tema “Comunicação e afetos em temos de redes sociais” foi proposto por ela e apresentado na reunião anual da Intercom realizada durante o evento em Fortaleza. Alteridade é um conceito em voga nas ciências sociais aplicadas atualmente .
Em 2013, o Amzonas vai sediar tanto o Intercom Regional Norte quanto o Nacional. Confira o site do Intercom Manaus: www.intercomanaus.com

terça-feira, 15 de maio de 2012

Curso de Economia Criativa


No dia 05 de junho, terça-feira, Belém receberá o Curso de Economia Criativa e Empreendedorismo, evento gratuito que será realizado em cinco capitais, mapeando todas as regiões do país. Trata-se de um projeto realizado pela Garimpo de Soluções (SP), que conta com o patrocínio do SEBRAE nacional e que, no Pará, tem também o apoio do SEBRAE-PA, da Representação Regional Norte do Ministério da Cultura e do Banco da Amazônia.
Na programação, duas aulas com professores que são referência nacional na área: a economista e urbanista Ana Carla Fonseca Reis e o economista Leandro Valiati. Além das aulas expositivas, os professores conduzem uma mesa-redonda formada por agentes representativos do setor cultural e criativo local, integrando empresários, gestores e profissionais ligados ao segmento. Assim, teoria e prática juntam-se para dar espaço ao nascimento de ações efetivas e bem fundamentadas.
Para se inscrever mande um e-mail para economiacriativa@gmail.com com "Belém" no assunto e seu nome e RG no corpo da mensagem.

terça-feira, 8 de maio de 2012

Belém adere ao Sistema Nacional de Cultura


O prefeito Duciomar Costa reúne hoje pela manhã com uma comissão de 15 artistas, produtores e militantes da área cultural, reunidos no Fórum Municipal de Cultura, para assinar o projeto de criação do Sistema Municipal de Cultura, que deve ser integrado ao Sistema Nacional de Cultura.
Com essa articulação, Duciomar desmobiliza a campanha de arrecadação de assinaturas para o projeto que pretendiam encaminhar à Câmara Municipal de Belém. Segundo o cantor e compositor, Augusto Hijo, um dos ativos integrantes do Fórum, a medida também deve elevar o orçamento municipal de cultura dos atuais R$ 10 milhões para mais de R$ 40 milhões.
“Essa não deixa de ser uma grande vitória para a cultura de Belém, principalmente daquelas pessoas que se dedicaram a essa causa, participando dos fóruns, das reuniões setoriais, enfim, para as pessoas que abdicaram muitas vezes de projetos pessoais em nome de uma causa coletiva”, diz Augusto Hijo.
Comissão Permanente de Cultura da CMB tem como presidente o vereador Marquinho. E a assinatura de Adesão ao Sistema Nacional de Cultura acontecerá às 9h, no Palácio Antonio Lemos. Às 11h deverá ser protocolo o Projeto de Lei  na Câmara Municipal. Participam as lideranças setoriais de cultura do Munícipio.

Conteúdo compartilhado com o site www.paramusica.com.br 

sexta-feira, 11 de novembro de 2011

Cultura e o "Custo Amazônico"

No último dia 31 ocorreu na Assembléia Legislativa do Estado do Pará (Alepa) a audiência pública promovida pela Câmara dos Deputados sobre o o Procultura, projeto de Lei que pretende reformar o sistema de financiamento da Cultura. A iniciativa foi do deputado federal Claudio Puty (PT-PA), presidente da Comissão de Finanças, por onde tramita o projeto, mas também estiveram por lá o deputado Arnaldo Jordy (PPS-PA); o deputado estadual Edilson Moura (PT); o presidente da Fundação Cultural Tancredo Neves, cantor e compositor Nilson Chaves; o secretario nacional de Fomento e Incentivo à Cultura do Minc, Henilton Menezes; um dos dois membros paraense do Conselho Nacional de Políticas Culturais (CPNC), Antonio Ferreira, de Cultura Afro; o deputado federal Pedro Eugênio (PT-PE), relator do projeto e Eliana Bogéa, membro da comissão formada pela classe artística e de produtores responsável por apresentar sugestões elaboradas em uma série de reuniões. Segue algumas considerações e observações sobre o encontro.


1 - Ano passado cerca de R$ 1,3 bilhão foram investidos em cultura através da Lei Rouanet e talvez de outros mecanismos de financiamento. Cerca de R$ 200 milhões a mais que no ano anterior. Segundo Henilton, mais de 90% desse dinheiro era do governo, através de renúncia fiscal.

2 – Mais de 70% do dinheiro ficou na região Sudeste, mais especificamente em bairros nobres de São Paulo e Rio de Janeiro. O investimento no Espírito Santo, por exemplo, é irrisório.

3 - As distorções são grandes e Henilton disse que o Minc não espera só pela mudança da Lei, que deve demorar ainda, para tentar corrigir as distorções. No entanto, entre os dois últimos dados de financiamento de projetos da Lei Rouanet na região Norte, o percentual mudou de pouco mais de 0,4% para pouco mais de 1,4%. Acredito que esses dados se referem aos anos de 2009 e 2010. Uma variação proporcional de mais de 100% mas que na prática, sobre os números absolutos, representa um aumento de 1%. Esse são os nossos “grandes números”.

4 - Henilton disse que o Minc conversa com a Vale para que a empresa abra um edital especifico para a região amazônica.

5 - Nilson Chaves sugeriu que se uma grande empresa, pública ou privada, patrocina cinco grandes projetos na região Sudeste, por exemplo, deveria patrocinar tantos projeto iguais nas outras regiões.

6 - O deputado Pedro Eugenio, por sua vez, acredita que deva ser dado 100% da renúncia fiscal para quem patrocina, para que não percamos o “apoio” da iniciativa privada. Pode ser que com crise e tudo o mais, realmente devamos ter medo de perder dinheiro de patrocínio privado, mas é bom sempre lembrar que a renúncia é dinheiro público. Quando Gilberto Gil estava saindo do governo, falava em avançar para que o empresário entrasse com 50% e o governo com 50%. Era o que ele dizia que seria o ideal.

7 - Arnaldo Jordy fez uma defesa do “Custo Amazônico” baseado na ideia de que os custos de produções são mais caros aqui que em outras regiões do país.

8 - Henilton disse que no dia da audiência, a Folha de São Paulo publicou uma matéria “detonando” a pesquisa encomendada à Fundação Getulio Vargas sobre preços de serviços culturais em algumas capitais do país. Nela, Belém tem preços mais altos de serviços de técnicos e instrumentistas, por exemplo, do que em São Paulo. Traduzindo a opinião de Henilton para um tom bem popularesco seria mais ou menos assim: “A imprensa reacionária acredita que aqui só tem bocó, e não pode cobrar caro por serviços tão sofisticados como as horas de serviço de um pianista”.

9 - O produtor Sergio Oliveira sugeriu que o governo obrigasse as estatais ou empresas mistas a somarem seus investimentos em cultura na região. O deputado Pedro Eugenio achou “complicado”, uma vez que o governo não tem ingerência sobre cada direção de empresa. “O que pode haver é uma diplomacia onde a gente conversa e explica que a diretriz do governo é uma e que eles poderiam fazer de acordo”, explicou o deputado. Onde estão os estadistas capazes de o fazer?!

10 - Carlos Henrique Gonçalves fez uma defesa do “Custo Amazônico” como uma compensação histórica pela exploração da Amazônia.

O Minc sabe das distorções e promete trabalhar mesmo antes da aprovação da Lei para atenuá-las. Assim esperamos. Eu me manifestei. Disse que é preciso pensar a cultura como necessidade de preservação de identidade e tudo, mas também é preciso pensar nela como fator de desenvolvimento econômico, sim, uma vez que a maioria prefere pensar nisso como algo “sagrado”. Vamos identificar o que é sagrado e preservar. O que tiver potencial econômico vamos investir como necessidade de identificar o Brasil no contexto global. A cultura tem poder transformador inclusive por isso. No entanto, esse mercado deve crescer com regulação rígida, sim, e corrigindo as distorções que existem não somente entre as regiões, os estados e os municípios, mas as distorções que existem entre técnicos, artistas, produtores etc. Vamos construir um mercado que seja um fator de desenvolvimento para a nossa cultura e para o nosso povo, de verdade. Nós podemos?

domingo, 28 de agosto de 2011

Cultura vai juntar situação e oposição?

O “Diálogo Cultural”, realizado pela Regional do Minc Norte e Fundação Tancredo Neves na última sexta-feira no Cine Teatro Líbero Luxardo do Centur , juntou na mesma mesa os deputados federais Arnaldo Jordy (PPS) e Claudio Puty (PT). Pertencentes a bancadas de partidos opositores no Estado, Jordy e Puty afinaram o discurso em prol da Cultura da Amazônia e do Estado.

O discurso comum é a defesa do chamado “Custo Amazônico”, um princípio defendido e aprovado na II Conferencia Nacional de Cultura em Brasília pelas bancadas de representações regionais. Votação fortemente influenciada por representantes paraenses nos colegiados setoriais de cultura - estruturas de consulta institucionalizadas ao longo das gestões de Juca Ferreira e Gilberto Gil, que hoje compõem uma política de Estado, firmada com a Lei do Plano Nacional de Cultura, aprovada em dezembro passado.

A discussão não é nova. Segundo dados registrados pelo Minc há cerca de três anos, apenas 0,43% dos recursos da Lei Rouanet ficam na região, enquanto mais de 70% potencializam os investimentos culturais na região Sudeste do Brasil. Esse quadro já mudou, talvez os recursos no Norte tenham chegado a algo em torno de 1,5%, o que ainda está muito aquém das dimensões grandiosas da região.

O burburinho em torno dessa desigualdade regional não chega a sensibilizar representantes setoriais de outras regiões que ocupam os colegiados e o Conselho Nacional de Políticas Culturais (CNPC), órgão formado por representantes dos colegiados e de outras instancias e que também fazem parte da institucionalização da cultura.

Tanto é assim que na última reunião do Colegiado Setorial de Música, em junho passado, coloquei a questão em pauta. Ela foi aprovada não como um princípio de isonomia da região Norte, mas indiretamente pela busca da igualdade entre as regiões, o que já seria um avanço significativo em relação a realidade que temos hoje. A questão, dessa forma, foi aprovada como prioridade nas diretrizes setoriais naquele colegiado. Mas não sem antes ser ridicularizada por membros do colegiado de outras regiões.

A questão do “Custo Amazônico” foi levada ao CNPC e lá, segundo Isaac Oliveira, um dos dois representantes do Pará no CNPC, pertencente ao Colegiado Setorial de Culturas Populares, ele foi vencido. Os argumentos dos conselheiros contrários é que não existem dados suficientes que comprovem que a região necessite ser tratada com diferencial em relação às outras regiões do país.

Esse possível dispositivo deveria estar contido na lei Procultura, que redefine os parâmetros e métodos de financiamento da produção cultural do País. O Procultura vai substituir a Lei Rouanet e incorporar outros dispositivos de financiamento, sendo o principal deles o Fundo Nacional de Cultura. O documento acaba de sair do CNPC e está tramitando nas comissões parlamentares antes de ser posto a votação no Congresso Nacional.

Se aprovada do modo como está hoje redigida, a proposta define que a renúncia fiscal, principal mecanismo de financiamento através da Lei Rouanet, será somada ao mesmo volume de recursos provenientes do orçamento do estado para multiplicar os investimentos no setor.

A luta das lideranças culturais nesse momento é para que o chamado “Custo Amazônico” seja incorporado ao texto nas tramitações dentro do Congresso. Para isso, Puty e Jordy, que compõem comissões diferentes, por onde o texto deve tramitar, acordaram a possibilidade de realizar audiências públicas no Pará e na Amazônia onde seriam discutido e argumentado de melhor forma o principio do investimento necessário para o desenvolvimento do potencial cultural da região.

Seria a Cultura o tópico capaz de juntar oposição e situação no Pará em torno de uma política comum de desenvolvimento do Estado e da Região? Coisa difícil de dizer na política paraense. Arnaldo Jordy esteve reunido com a Ministra da Cultura na presença de Lucinha Bastos, atual diretora de integração da Fundação Cultural Tancredo Neves. Jordy e Lucinha disseram ter boa acolhida na proposta. O MINC já tinha criado no ano passado um edital de pequenos projetos para a Amazônia, que desburocratizam e estimulam a pequena produção. Aliás, um dos argumentos de tão poucos recursos na Amâzonia é a falta de projetos consistentes e bem elaborados. Argumento que ora vai cair em descrédito. De qualquer forma, a classe de produtores e artistas tem muito o que rever nesse processo de transição. E tem que se preparar para um novo momento.


Custo amazônico?


Na minha opinião, a primeira coisa que deve mudar no discurso atual é o termo “custo”. O que se deve propor nesse momento é o desenvolvimento de um mercado cultural na Amazônia. Já está mais do que claro que as manifestações culturais de todo o tipo e os talentos em todos os setores, seja na música, no cinema, nas artes visuais, na dança, enfim, nos mais diversos segmentos da produção cultural brasileira e universal, existem e tem potencial. Potencial que na Amazônia, conciliando os fatores geográficos e históricos do país, encontra terreno fértil ao desenvolvimento de tal indústria.

Lembro os argumentos expostos no primeiro artigo publicado neste blog há três anos, quando falava da importância da Economia da Cultura e Economia Criativa para o Brasil, principalmente diante da atual configuração econômica mundial.

Quando foi escrito meu artigo, por circunstância da primeira crise econômica do século 21, disseram que era ingenuidade minha afirmar que o império americano estava em decadência. Hoje, por mais distante que essa realidade possa estar, ela é ainda mais factível do que naquela época.

No entanto, o primeiro desafio desse desenvolvimento é justamente mudar a nossa mentalidade. A incorporação do termo “custo” pelas lideranças culturais e políticas que começam a se apropriar desse discurso, e em alguns casos, fazendo dele bandeira política, indica facilmente a nossa inclinação mental e nos mostra como ainda pensamos pequeno. “Custo” em empreendedorismo é aquilo que onera o produto. Que o torna caro. No entanto, somando os valores sociais, simbólicos e ambientais presentes na Amazônia, os recursos aplicados aqui são, pelo menos na cultura, evidentes investimentos.

O desenvolvimento de uma economia da cultura tem potencial estratégico na afirmação de uma nação. Em primeiro lugar, sim, pelo seu fator simbólico de afirmação da identidade cultural deste país sobre os demais ou aos demais -- sem necessariamente imposições imperialistas como assim o fez o hoje arriscado império americano. Em segundo lugar pela dimensão econômica de seu desenvolvimento, que é estratégica diante do fator social e ambiental, uma vez que a difusão da cultura cada vez mais reduz impactos através do meio digital.

Os modelos americanos de megaeventos, que também promovem grande impacto ambiental, podem ser adaptados à nossa realidade, buscando tecnologias de produção próprias em parceria com os vizinhos americanos ou brasileiros mais avançados nesse processo. Poderemos enfim potencializar o turismo histórico e natural, o turismo cultural. Sabe aquela música “Vou destruir o Ver-o-Peso (...) Coitada da Cidade velha, que foi vendida para Hollywood” ?? Não precisa ser assim. Mas alguém tem que fazer um dia um filme digno da dimensão do que foi a Cabanagem, por exemplo. Seremos nós?


Simbolismo e política, teoria e prática


Chegou a hora do Brasil e da Amazônia assumir seu protagonismo. Não vamos desenvolver Economia da Cultura com a mentalidade de “pequenos projetos culturais” apenas. A Lei do Procultura define algo muito importante para todos os que produzem cultura na região e precisam sobreviver para continuar produzindo. Mas é preciso um programa específico, como o que já esta sendo pensado e proposto pela regional do Minc, como um PAC da Cultura para a Amazônia.

É preciso aplicar nesse momento os princípios econômicos de Keynes para desenvolver essa economia. É preciso investir em infra-estrutura: teatros, gravadoras, companhias de teatro, fábricas de instrumentos, estúdio de cinema, na recuperação do nosso centro histórico, em Educação - que na Economia da Cultura é tão fundamental quanto uma Transamazônica no PAC da economia tradicional.

Não dá para pensar só no meu disco, na minha peça, no meu festival etc. É preciso identificar os investidores potenciais, os empreendedores que já tem know how e experiência e que podem conduzir esse processo em seus setores. Àqueles que podem achar que a indústria fere a magia, o encanto ou a mística, ou a identidade da cultura local, é preciso dizer mais. O modelo de desenvolvimento, nós vamos escolher com participação. A cultura muda, isso é fato. A cultura sobrevive, se adéqua, se transforma. E isso dependente da nossa disposição para digerir e dirigir as políticas públicas. Depende de nós. Nós podemos?

sexta-feira, 26 de agosto de 2011

O lado dos Porongas

Passam alguns minutos das 10 da noite quando chego ao Parque dos Igarapés, com minha amiga Karine Pedrosa, para o lançamento do Prêmio Curupira de Música Independente, uma iniciativa que promete marcar um novo momento da música do Pará, juntamente com outra série de acontecimentos importantes. Parece que é cedo para as festas no Parque. Los Porongas estão passando o som. Eles são, sem dúvida, a principal atração para os indies e roqueirinhos que compareceram à festa. Nem tantos assim. No geral o público é bem diverso e disperso, o que valeria mais tarde a sentença de Karine de que Belém vive uma revolução burguesa tardia. A sentença fica por conta da interpretação dos leitores.

Um amigo ligado na produção do evento me dá a dica, o furo da noite. João Eduardo, guitarrista dos Porongas, está de saída. Os Porongas são uma daquelas bandas em que seus integrantes vivem como irmãos e tal cumplicidade gera um som tão novo quanto autêntico e honesto. “Entrevista ele. É um furo”, garantiu meu amigo. Eu compro a ideia e na sequência já me vejo no chalé onde eles estão hospedados.

Poucos minutos depois, estou sentado na cama do vocalista Diogo Soares. Magrão, o baixista, e Anzol, o baterista, estão cada um em uma das quatro camas que ocupam o único cômodo no térreo do chalé. Karine, que insistiu em vir comigo, está sentada na outra, dedilhando o violão de João. “Diz que eu sou a nova estagiária da Pro Rock, prometo que não vou atrapalhar”, disse ela, empolgada com a ideia de acompanhar a entrevista.

O mote da conversa não é a saída de João, mas a mudanças que culminaram com o momento do segundo disco, “o segundo depois do silêncio”, contemplado com o Prêmio Pixinguinha, da Funarte. A produção foi conduzida pela banda tendo a frente das gravações João, que está de saída justamente para trabalhar a perspectiva nova de compositor e produtor. Após quatro anos em São Paulo com a banda, João disse que sai com as bases firmadas para o novo desafio. Carlos Gadelha o substituirá.


Gravado em São Paulo, ora em casa, ora em estúdios de músicos amigos, o disco foi lançado em fevereiro no Acre. Ainda não está nas lojas, mas vai chegar através do selo Baritone e da distribuidora Tratore. Em junho o disco foi disponibilizado pela banda para download. “Penso que é uma atitude de elegância, condizente como o nosso tempo. Não vamos ganhar dinheiro com o disco, podemos ganhar com os shows, com merchandisign”, explica Diogo, ainda tentando se adaptar às mudanças estruturais do novo empreendimento.

“Estamos sentindo a necessidade de viajar com um produtor, estamos trabalhando com uma equipe de produtores amigos. Com assessoria de imprensa da Renata Dornelles, que está dando super resultado. O disco já foi resenhado na capa do caderno de cultura do Correio Brasiliense, no Zero Hora de Porto Alegre, e em outras capitais do País. Só não saiu na Folha e no Estadão porque ainda não chegou nas lojas”, prossegue Diogo.

Esse novo momento dos Porongas parece conciliar, como em uma das canções do novo disco, os dois lados de uma mesma moeda. A paixão e a busca de um profissionalismo. “Não existe um emprego que eu queira mais nesse momento do que ser vocalista dos Los Porongas”, confidencia Diogo.

A profissionalização, aliás, está na base das mudanças que deram o resultado estético desse novo disco. Magrão é o único que não largou o emprego diurno, ainda trabalha no banco. Mas vive a música muito mais. Pela primeira vez teve aulas de contrabaixo. Anzol, que já era o principal instrumentista quando a banda saiu de Rio Branco, há quatro anos, também tem se dedicado ao estudo do instrumento.

“O que mudou basicamente é que há quatro anos nos éramos todos funcionários públicos. E hoje nós somos muito mais músicos. Não tem como você não evoluir se dedicando exclusivamente a isso. Querendo apenas isso como sua profissão mesmo”, conta Anzol.

O processo ajudou. No primeiro disco, lançado pelo selo Senhor F, foi gravado em Brasília, com Phelipe Seabra, a banda tinha, basicamente, baixo, bateria e guitarra. Neste novo trabalho, sem a imposição do relógio no estúdio, ousaram gravar viola caipira, teclado, programações e percussão. “É diferente gravar em casa. Você para, fuma um baseado, pensa mais na música, volta para gravar”, diz Anzol.

Mas claro que não foi só o processo. Mudou muita coisa porque são pessoas e músicos diferentes hoje. Ver e conviver com outros músicos, como eles tocam e cantam é uma citação de Diogo, que se refere a Tulipa Ruiz e Hélio Flandres, do Vanguart, entre as pessoas que lhe ajudaram a entender um novo jeito de cantar. O contato com Dado Villa-Lobos, que produziu uma das músicas do disco, também colaborou com isso.

“O silêncio...” parece um grande experimento onde os Porongas exercitaram e evoluíram o seu jeito de fazer música.



Paixão versus política


A paixão, o outro lado da moeda. Quando Dado Villa-Lobos soube que eles largaram tudo no estado de origem para tentar a vida como músicos em São Paulo, disse: “pensei que não existisse mais esse tipo de malucos”. Essa paixão é o que os motiva. Mas tem também as desilusões, que são sempre boa munição para canções.

A paixão se contrapõe à política. E por isso mesmo eu titubeio em falar no assunto que há cinco anos parece dominar a cena independente brasileira, desde o surgimento do Circuito Fora do Eixo, ao qual a banda esteve muito ligada no início. Mas Diogo parece não se incomodar. Reconhece a importância e fala com segurança das ações do FDE. Cita também o programa Conexão Vivo, que ele considera a melhor plataforma de circulação do país hoje. Mas garante que o caminho na música vai além disso.

“Sempre penso que a política é uma força de conservação, enquanto que a arte é uma força de transformação. Toda situação política exige tato para você lidar com o poder, com um engajamento necessário. E a gente quer é fazer música. A gente quer tocar.
A gente tem se pautado nas parcerias. Na vontade das pessoas se conhecerem, de confiarem e quererem fazer as coisas juntas”, conta ele.

A fala mansa e segura e uma atitude que não demonstra nem ressentimento nem empolgação parece camuflar a crítica mais dura que vem a seguir. “A gente mesmo é bem outsider disso. Vivemos nos quatro anos que estamos em São Paulo bem longe do Fora do Eixo, e o próprio circuito não fez muita questão de saber como se relacionar com os Porongas. Às vezes fico muito temeroso com esses discursos coletivistas, principalmente quando há uma exclusão velada. Só não incomoda mais porque a gente está fazendo o que a gente vive, o que a gente escolheu”.

Após a entrevista, durante o show, quando Diogo tocou “Fortaleza”, a climática faixa de seis minutos que abre o disco, mandou um recado: “Essa nós fizemos por causa de certas exclusões veladas que existem na cena independente”. Na faixa ele instiga: “Como é que vão dizer o que não é e você vai ficar calado?”. E como se estivesse reafirmando o papel da arte sobre a política quando pergunta: “Quem vai poder plantar as flores que nascem na cabeça?”.

Com crítica ou sem crítica, o fato reconhecido pelo amadurecimento dos músicos é que, “no começo era tudo mais desarticulado. Hoje em dia o deslumbre com um falso glamour é muito menor.” E isso se deveu a toda essa movimentação da cena independente, com a qual, sem dúvida, o Circuito colaborou muito.

O papo também não poupou a nova Ministra da Cultura, Ana de Holanda, que, segundo Diogo, parecia não entender o que estava sendo feito antes dela chegar. “Isso é comum nas políticas culturais no país inteiro. Aliás, não só nas políticas culturais. Entra um novo governante e interrompe as políticas que foram construídas com a comunidade. Acho que isso é uma mazela da nossa democracia”.

Diogo garante que é um direito do Fora do Eixo reivindicar uma política que ajudou a construir com a participação das pessoas. Por outro lado, as políticas culturais ainda permitem prêmios editais como o Pinxiguinha. “Talvez isso [o encerramento de um ciclo na política pública] instigue ainda mais as bandas a fazerem os seus corres independente de apoio de governo”, opina Anzol.

Mas não dá para se iludir. Não existe maneira de se manter em São Paulo tocando na Augusta. “O custo de vida de São Paulo é muito alto. Comparável a Manhattan. A cena independente não está tão estruturada a ponto de garantir a sustentabilidade das bandas”, diz Anzol. “Não existe fórmula”, completa Diogo. De qualquer modo, “a vontade do cara tocar guitarra e montar uma banda sempre vai existir”. As lições de oito anos de carreira e quatro morando em São Paulo continuam: “O que você precisa entender é que a gente vive num mundo capitalista e se você quer viver de música você precisa se adequar a seu tempo.”


Não tem nem meia hora de gravação e o papo parece que durou muito mais. João chega e confirma tudo que foi dito sobre a sua saída. Depois da confraternização com os músicos de Saulo Duarte, a gente se despede para a banda se concentrar antes de ir para o palco. No caminho de volta para a festa, Karine pergunta: “Só uma dúvida de estagiária, naquela parte em que ele diz que fumava um baseado entre uma gravação e outra você transcreve exatamente o que ele disse?”.

Voltamos e o público tinha aumentado. Até as 7h da manhã muitas pessoas se confraternizaram ao som de 12 curimbós ritmando o swingue da Música do Pará.


Quebrando o Silêncio


“O segundo depois do silêncio” começa com “Fortaleza”. Climática, a faixa tem seis minutos de uma poesia meio ressentida, meio magoada. Os efeitos e os arranjos são grandiosos. O clima é de expurgar, de liberar certa raiva: “No lugar de onde nunca vim / que amigos já não sei quem são? / Do que eu me esqueci por indelicadeza?”.

“Cada segundo” começa com belas frases de guitarra, sob um arranjo que mantém o clima etéreo dos teclados e efeitos. Melodias belíssimas duelam com a poesia passional de Diogo. E o expurgo continua: “O mar do medo é uma gota pra se navegar”.

O clima progressivo segue com “Bem Longe” e a grandiloqüência dos arranjos já quase demonstra cansaço, quando “Dois lados” nos salva. Não adianta. É um disco para ser contemplado e se você não tiver disposição para desvendar as melodias e letras, então não perca seu tempo. É um disco para ser descoberto. “Quando o barco balançar / Você vai permanecer / Eu pulo”. Os metais e a viola caipira no arranjo de “Dois lados” faz dela uma das melhores do disco.

As faixas são longas, mas as letras e as melodias grudam, contrariando as formulas de bolo das canções radiofônicas. A comparação com a Legião Urbana é inevitável nem tanto pela estética, mas pela postura. E Dado Villa-Lobos imprime sua marca com a produção de “Sangue novo”. Durante os solos de guitarra parece que estamos diante dos melhores momentos do pós-punk brasileiro. “Silêncio” é a música de trabalho, tem menos de quatro minutos e virou o primeiro clipe.

No próximo destaque, Hélio Flandres empresta seu jeito blazé para tornar “Mais difícil” uma balada blues de doer no coração. Nessas horas a gente pensa que muito das críticas a alguns emergentes e independentes artistas está contaminada com a política e menos tem haver com música. E dá para entender (lembrar?) onde reside o sentimento que nos provoca que nos instiga na música.

E já não bastasse tudo isso e o que ainda nos resta até chegar à última das 12 faixas do disco, Mauricio Pereira (Ex-Mulheres Negras) é mais um a abençoar a escolha dos Porongas pela música. Ele encerra o disco com a participação em “Longo Passeio”, onde finalmente a melodia já não precisa nem de letra para te pegar. Se fosse um “papapá” fácil de qualquer banda de power pop seria bem diferente. Mas não se trata disso. Não é um disco fácil. É um disco raro.


*Nicobates foi ao lançamento do Prêmio Curupira Antenado a convite da organização do evento. As fotos são de Nayane Muniz e de Thiago Araújo e foram fornecidas pela produção do evento.

segunda-feira, 22 de agosto de 2011

Ecad: Máquina de fazer dinheiro

No ano passado o Ecad arrecadou algo em torno de 350 milhões de reais. É uma arrecadação muito grande, dizem, e continua crescendo a cada ano. Mesmo tendo que apurar cerca de 80% de suas receitas por via judicial, o Ecad é uma máquina de fazer dinheiro. Tem a legislação e o preceito de legitimidade a seu lado, pois as associações que o mantém, com seus próprios recursos, são entidades que representam os compositores e autores brasileiros. Estas associações, que são as representantes legais dos compositores, doam parte significativa de suas receitas para manter o Ecad.

O Escritório Central de Arrecadação e Distribuição do Direito Autoral (Ecad) cumpre a função que o autor sozinho não poderia cumprir. O de aferir e recolher os direitos pela execução de sua obra. Imagine o autor, sozinho, indo de bar em bar, de rádio em rádio cobrando o seu legítimo direito pela execução de sua obra. Seria algo difícil, você não acha? Mas ele pode fazer isso se quiser. É permitido e facultado por lei.

Mas porque recolher direito autoral? Por que tentar ser remunerado se a gente aprendeu nas ultimas décadas que não era possível ganhar dinheiro com direito autoral? Houve muitas distorções no meio do caminho, mas uma coisa é certa: bares, veículos de comunicação, academias, lojas e muitos estabelecimentos comerciais ganham dinheiro vendendo serviços ou espaços publicitários que se utilizam da música como atrativo. Você escuta a rádio pela música, mas a uma rádio se aproveita de que você a ouve por causa da música e vende espaços de publicidade. Assim, é justo que você ganhe pela utilização de sua obra.

A cultura da distribuição gratuita da internet e a falta de mínimo senso profissional dos compositores da geração digital, principalmente aqueles de regiões periféricas onde o mercado cultural ainda não se estabeleceu, faz parecer uma coisa absurda pensar em ganhar dinheiro com direito autoral. Mas, como se pode ver, o dinheiro existe. Essas execuções geram dinheiro e alguém está ganhando em cima dessas obras. Se você não recolhe, outros recolherão por você. Há alguns meses a impressa noticiou o caso de um espertinho que se disse co-autor da trilha sonora de vários filmes. A associação a que ele se filiou acreditou (ou foi conivente, isso ainda está sendo apurado) e ele recebeu um cheque de R$ 110 mil por obras que nunca compôs.

Enquanto isso, autores paraenses que cresceram na cultura da distribuição digital, foram procurados para recolher seus direitos através de uma associação e nunca tiveram interesse em se filiar. Escuto muitas queixas de músicos que acreditam que não tem nem tempo nem dinheiro para cumprir a burocracia de recolher seus direitos autorais. E tem artista que tem música em filme da Globo. Os direitos autorais retidos são garantidos por cinco anos. Depois disso, eles serão redistribuídos pelos maiores arrecadadores integrados ao sistema. A CPI do Ecad tem apurado que os dirigentes do órgão trabalham com metas de arrecadação e ganham polpudas comissões em cima dessas metas.

Autores independentes como Madame Saatan, Elder Effe e outros paraenses já cumprem ações básicas de informar o Ecad quando tocam em festivais ou quando tem sua música executada em rádio ou TV. Isso, às vezes, garante que seu dinheirinho seja recolhido e some no caixa da empresa, que deve ter faturamento pra se manter.

Converso com compositores novos que dizem não acreditar “nesse papo de associação” e que se recusam completamente a se associar para qualquer fim. Cheguei a ouvir deles que deveriam ganhar pela execução de sua obra, mas isso deveria ser automático, sem o envolvimento do artista. Seria ótimo se fosse assim, mas a vida não tão fácil quanto parecia quando a gente pegou o violão pela primeira vez pra fazer música.

Pena Schimit, uma referência para qualquer profissional de música no Brasil, indie ou mainstream, disse em artigo recente que o artista deve estar de olho no seu direito autoral. É o mínimo. Por isso, é bom entender como funciona o sistema de arrecadação e distribuição de tal dinheiro.


Enquanto isso, na Câmara dos Deputados

Em junho estive na reunião da Comissão de Educação e Cultura da Câmara dos Deputados em Brasília. Foi a última reunião antes da instauração da CPI do Ecad. Estavam presentes na mesa, vários estudiosos advogados que denunciaram práticas recentes do Ecad. Estava na mesma mesa também o Leoni, aquele cantor pop que tocou com Kid Abelha e fez parte da banda Heróis da Resistência e que hoje aparece em um monte de revistas como referência de artista que sabe lidar com seu público na era digital. Leoni integra um movimento de artistas que se chama “A Terceira Via do DA”. Leoni disse que leva uma vida confortável graças aos direitos autorais que lhe são repassados por suas obras.

Lá também estava Téo Ruiz, paranaense que integra o Fórum Nacional da Música (FNM), movimento fortalecido pelas ações da gestão de Gilberto Gil e Juca Ferreira frente ao Ministério da Cultura. Teo Ruiz escreveu um livro chamado “Contra a Indústria”, em que prega formas modernas de gestão de carreira longe do “esquemão” da Indústria Fonográfica. Lá estavam os deputados, a superintendente do Ecad, Glória Braga, e artistas famosos que defendem o modelo atual, entre eles Sandra de Sá e Walter Franco. Esses não estavam na mesa e ficaram somente até a hora de fazer suas falas e posar para as fotos. Depois pegaram o avião de volta pra São Paulo e para o Rio.

Nenhum deles, absolutamente nenhum deles, se manifestou a favor da extinção do Ecad. É pouco provável portanto que qualquer reforma da Lei de DA diga que o autor não deve receber pela execução de sua obra. O que todos querem é reformular a lei e/ou regulamentar os princípios que medem a arrecadação. A atual Ministra da Cultura, Ana de Hollanda, já dizia que existem na lei atual mecanismos de aferição, de cessão de direitos e tudo o mais que a legião de produtores, autores e agentes digitais prega. Ou seja, não precisaria de reforma, basta que os interessados busquem fazer valer os seus direitos.

A Funarte chegou a criar um edital para premiar “propostas alternativas” ou ‘inovadoras” de gestão de direitos autorais. Não sei se vingou. É verdade que a lei permite que você não se associe e que você recolha direitos autorais sozinho. Mas é impossível se concentrar em sua carreira e fazer isso ao mesmo tempo. As associações existem para isso e ganham para isso, e ganham em cima do que elas arrecadam, por isso, o autor não perde nada. O investimento dele já foi feito quando ele compôs, gravou e divulgou seu trabalho. Esses três procedimentos juntos garantem a entrada de sua obra em um circuito comercial e logo lhe garante a arrecadação, ou deveria, mesmo que ela seja pequena.


A exceção de algumas emissoras de TV e rádio, que emitem relatórios detalhados, o Ecad recolhe por “amostragem”. Ou seja, ele aplica regras estatísticas para projetar, em cima de poucas horas de programação gravada, a execução das obras dos autores filiados. Essa é a maior distorção. A programação da rádio não segue uma ordem aleatória de progressão aritmética ou geométrica como se entendem as regras estatísticas.

Se você desconsiderar o jabá, a programação da rádio e da televisão segue a intenção dos programadores segundo suas necessidades estéticas e gostos pessoais naquele horário e naquele programa. Assim, eu posso tocar uma ou duas vezes num programa de rock e nunca aparecer numa amostragem do Ecad, porque ela foi feita em horário comercial.

Na televisão, o Ecad garante que a arrecadação é feita por obra. Toda obra executada é registrada e repassada ao Ecad em um relatório de execução. Glória Braga afirmou que existem mais de 350 mil autores registrados no Brasil mas as grandes emissoras só executam 19 mil deles. Quando ela falou isso, a platéia gritou “jabá” do lado de cá.

Mas a arrecadação pode ser pulverizada pelas emissoras regionais e segmentada por estados e municípios. Se as rádios públicas e universitárias de cada estado e município, assim como emissoras regionais de televisão, se dispuserem a trabalhar em parceria com entidades representativas, elas, que não deixam de pagar o Ecad de qualquer modo, podem contribuir ao menos para que a distribuição seja mais justa.

Já perguntei a um ex-diretor de rádio pública e ele disse: “Nós pagamos o Ecad, vá lá recolher seus direitos!”. O diretor, ex-sindicalista, sabe defender seus direitos certamente, mas não era muito preocupado com o direito do artista. Quando eu perguntei se ele tinha informado a programação da Rádio, ele disse “isso é problema do Ecad ele é que tem que ouvir a Radio e dizer quem a gente tocou!”.

Pois é, se a Radio não informar nós ficamos na mão do Ecad, que também tem seus problemas para aferir, arrecadar e distribuir. É necessário um novo pacto entre autores, suas representações, executores que ganham com a música e o poder público para tornar essa arrecadação mais justa e mais equilibrada, de modo a incentivar a produção do artista regional, aquele que não toca na Globo mas toca na TV Liberal ou na TV Cultura.

Segundo um relatório de dois meses atrás, as rádios paraenses, segundo me informou a minha associação, devem cerca de R$ 15 milhões ao Ecad. A Funtelpa, por exemplo, devia, segundo o Ecad, até o mês passado quase R$ 90 mil. Essas rádios sempre pagam porque ao contrário do exercício direto do músico, as execuções são consideradas comerciais. E o Ecad sempre leva na Justiça mesmo fazendo acordos. Mesmo que o dinheiro seja desviado dentro do Ecad, como estão comprovando as investigações da CPI.


Eu, independente também?

Você pode pensar: no meu caso, que sou musico independente, e não vivo disso, tenho outro emprego, compensa a burocracia, o gasto de energia de se inscrever numa associação para receber? Além da questão de compensar o investimento, há uma questão latente na sua possível omissão. Você ajuda a viciar o sistema se você se omite. Como cidadão e como profissional, você tem responsabilidades. Não adianta fugir delas. O Brasil está entrando em uma nova era de desenvolvimento econômico e social. A tendência é que a informalidade seja banida do mercado, e é preciso acompanhar os novos tempos.

Mesmo viciado, o sistema do Ecad é estudado por acadêmicos europeus porque seu modelo é mais justo em princípio. Só que, como o sistema é complexo e o artista não se envolve, acaba dando margem para desvios e distorções.

Na Europa, por exemplo, não existe fundo retido. O fundo retido é aquele dinheiro que é recolhido, mas não é repassado porque os autores dessas músicas não são associados às entidades mantenedoras do Ecad. No Brasil, esse fundo fica guardado por cinco anos depois é redistribuído entre autores e funcionários do Ecad como vem mostrando as investigações da CPI. Lá na Europa se sua música não é identificada na aferição o dinheiro entra no bolo de quem é. E pronto.

Mexer com o Direito Autoral hoje em dia implica em mexer em vespeiros de deputados e senadores que detém concessões publicas de veículos de comunicação de massas. Mas há uma CPI sobre o caso em curso. Por pouco e por ignorância dos músicos não emplacamos uma cadeira no Conselho Nacional de Comunicação. Isso quer dizer que mudanças são possíveis. E elas começam bem pequenas, conversando com o dono do bar que você conhece e que toca a sua música, conversando com o diretor de programação da rádio pública ou da radio universitária que você conhece. Conversando com outros artistas e outros músicos que como você passam pela mesma situação. Se organizando para uma gestão mais justa dos direitos e deveres que envolvem o exercício da profissão que você escolheu.




Fotos: Leoni, Teo Ruiz na mesa da audiência na Câmara dos deputados (1); Glória Braga, superintendente do Ecad, preparando0-se para dar entrevista (2); O poster e Malva Malvar, membros do Colegiado Setorial de Música em Brasília (3); Sandra de Sá e os artistas que defendem o Ecad na plateia da Comissão de Educação e Cultura na Câmara


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