domingo, 15 de novembro de 2009

Música Para Todos – Notas I

Reunião do Colegiado Setorial de Música em Brasília. Foto Manoel de Souza Neto (Fórum de Música do PR)

27 de outubro, terça-feira, Brasília. O diretor da Associação Brasileira de Produtores de Disco (ABPD) Eduardo Rojo está sentado a meu lado junto à mesa que reúne o Colegiado Setorial de Música do CNPC (Conselho Nacional de Políticas Culturais) em uma sala do Hotel San Marco, em Brasília.

O Colegiado deve tornar-se a instância consultiva mais importante do país no que diz respeito à política pública para a música -- importante produto da cultura nacional a figurar entre seus maiores potenciais socioeconômicos. Mas é difícil organizar-se em torno da dionisíaca arte brasileira.

Reconheço Rajo de reuniões anteriores da Câmara Setorial de Música, semente embrionária do Colegiado, fomentada pela política de Gilberto Gil quatro anos antes. Rajo sempre compôs a mesa criada pelo Ministério da Cultura. Ele é participativo e é um dos que sempre tem um item a destacar nos documentos que vão definir as políticas de incentivos. Ele sabe que seu negócio dependente, em parte significativamente importante, das regras que o Estado dita.

Digo a Rajo que sempre acompanho os balanços anuais da ABPD, que não deixaram de ser indicadores importantes do mercado. Tais balanços foram citados por Márcia Tostas no livro “Os donos da voz - Indústria Fonográfica Brasileira e Mundialização da Cultura”. Através das tabelas publicadas por ela, percebemos como o negócio cresceu até o final da década de 1990, quando o Napster mudou tudo. Era (e ainda é) uma indústria multibilionária. No início, porém, nomes hoje consagrados como Caetano Veloso, Chico Buarque e o ex-ministro Gilberto Gil, entre tantos outros, nunca deram lucro a ela.

(Ironia um: Os artistas brasileiros eram contratados pelas gravadoras multinacionais por exigência do governo nacionalista militar, que não abria mão de tê-las sediadas no Brasil e operando com um catálogo nacional. Para vender discos americanos, que realmente davam lucro, a indústria não pensou duas vezes em montar um catálogo nacional. Foi assim que os artistas que contestavam a ditadura puderam gravar vários discos, consolidar sua carreira e poder ser parte do imaginário cultural brasileiro, antes de dar lucro a essa indústria. Mas a indústria não dá ponto sem nó...)

De 2001 até 2007 a curva que demonstra os lucros da indústria fonográfica desce sem parar, em média 20 a 30% a cada ano. Em 2008 uma surpresa pouco comentada pela mídia nacional este ano: a tendência de queda foi estabilizada por um respiro de saldo 1,25% positivo. Não é nada se comparado à perda acumulada, mas é muito em análise crítica de mercado.

Alguns associados da própria ABPD dizem que esse “respiro” aconteceu por efeito da crise financeira mundial. Sim, a crise financeira impulsionou a venda de discos no Brasil! É o que dizem alguns dos associados da ABPD nesse documento.
Antes do crash a economia ia próspera, mas isso não se refletia diretamente em vendas de disco. Essa prosperidade se refletia, no segmento fonográfico, no número de downloads pagos na internet, que cresceu mais de 1.612% entre 2006 e 2007. O brasileiro descobria o download pago.

No ano seguinte à “descoberta” da música digital pelo brasileiro, o mercado começou a se estabilizar. De 2007 para 2008 (período em que a arrecadação com vendas físicas de CDs e DVDs respirou 1,12%), a venda de música digital subiu novamente: 68%. Não chegou aos astronômicos quatro dígitos percentuais do ano anterior, mas é um resultado mais do que excelente.

Na telefonia móvel, outra plataforma de venda digital, o crescimento nos últimos dois anos medidos foi de 127% e 82,4%, respectivamente. O setor de vendas digital no mundo todo cresceu 25%. No Brasil, esse crescimento foi superior a 79%. E estamos falando de apenas 12% do total de arrecadação do setor fonográfico brasileiro -- a maior parte da grana ainda vem da venda de discos e DVDs físicos.

O Brasil do futuro vende música digital. O Brasil do presente ainda não pode ignorar o CD e o DVD. O Brasil do presente e o Brasil do futuro precisam se encontrar.

Com a crise financeira mundial (estourada em outubro de 2008), o comércio sofreu o chamado “efeito batom”. Os luxuosos presentes de fim de ano, como aparelhos de celulares e outros eletroeletrônicos, deram lugar a presentes mais baratos e simbólicos. E o que mais simbólico e barato do que a música brasileira? CDs e DVDs de custo muito inferior, principalmente os catálogos antigos, reeditados pela indústria a preços módicos, deram um “gás” importante no mercado. Foram estes os responsáveis pelo respiro da venda física da indústria fonográfica em 2008, supõem os empresários do disco.

(Ironia dois: A indústria não dá ponto sem nó, e não joga dinheiro fora. Lembra dos discos de Gil, Caetano e Chico que não deram lucro na época de seus lançamentos e serviam à indústria apenas para garantir que a música americana fosse vendida livremente no Brasil, por exigências legais do governo nacionalista militar?! Pois é, 30, 40 anos depois eles são capazes de entrar em catálogo novamente, sem custos de lançamento e de promoção, a preços módicos, e em tempos de crise com distribuição de renda promovida pelo Governo Lula, e vender, dando gás a uma indústria que ia mal das pernas.)

Mas Rajo explica que na música a crise não influencia, em ordem direta, em aumento ou queda de vendas de disco ou downloads. “Esse ano nós não sabemos como vai ser. Tivemos alguns lançamentos muito bons. De modo geral, o que impulsiona as vendas são os sucessos. Se você tem sucessos, a música vende.”

Rajo concorda que o artista brasileiro, “sem generalizar”, se afastou de seu público, tornou-se distante, alienado. De qualquer forma, a ABPD está sempre atenta aos movimentos e aos jogos políticos que podem influenciar no mercado. “Gostaria de ver balanços tão consistentes fornecidos por outros atores da música, pois, somos os únicos a divulgar esses números”, diz Rajo.

A Associação Brasileira de Festivais Independentes (Abrafin) parece ser o alvo da “indireta” de Rajo. Hoje uma das instituições politicamente mais influentes na promoção de políticas públicas para a cultura musical brasileira, ainda não publica balanços. Seus números são de circulação, catalogados principalmente pela rede Fora do Eixo, e quase não falam em dinheiro e arrecadação.

Segundo informativo divulgado no último Congresso Fora do Eixo, realizado em setembro durante o Festival Varadouro (AC), 418 bandas circularam por 49 cidades brasileiras somente durante o festival Grito Rock, uma ação integrada nacionalmente através de coletivos de jovens que promovem a música alternativa em suas cidades.

Esses jovens recebem apoio dos governos municipais, estaduais e da iniciativa privada para a realização de shows. Parte significativa desses custos é paga pelos próprios artistas, os mais jovens ou que habitam os lugares mais distantes do eixo Rio-São Paulo, que pagam suas passagens para poder circular e ganhar visibilidade. Dinheiro, não, visibilidade, mídia etc são as principais moedas oferecidas pela rede Fora do Eixo.

Por o investimento ser fragmentado, é difícil saber quanto gira nesses negócios. Mas sabe-se de uma grande importância econômica e social, que talvez precise de uma aferição mais rigorosa de sua eficácia. Um dos princípios pregados pela rede Fora do Eixo é a Economia Solidária, fomentada pelo Governo Federal (não através do Ministério da Cultura, mas através do Ministério do Trabalho e Emprego). Foi a Secretaria Nacional de Economia Solidária que ensinou ao Fora do Eixo e à Abrafin que eles praticavam a chamada Ecosol.

Em 2006, numa das últimas reuniões da Câmara Setorial de Música no Rio de Janeiro, Fabrício Nobre, me disse que o Ministério do Trabalho procurou por eles. “Nós nem sabíamos que praticávamos a tal da economia solidária”, disse.

A Economia Solidária tem um princípio/meio socialista de apropriação dos meios de produção e divisam dos lucros entre os cooperados. Não é novo e é um princípio ligado ao capitalismo. Surgiu na Inglaterra depois da revolução industrial, quando os artesãos desempregados começaram a criar as cooperativas. A Economia Solidária deveria funcionar como um regulador do capitalismo. Está ligada a setores em que o capitalismo predatório não tem grande interesse. Como é o caso dos artesãos, dos catadores de lixo, e, ao que parece, dos “músicos pedreiros”.

Sua aplicação a um segmento que se confunde com o que é chamado também de Economia Criativa, setor nada desprezível nesta nova etapa do capitalismo global, gera contradições. Como manter duas frentes de música, uma profissional, onde não se aceitam barganhas, e outra semi profissional, que negocia sua produção pela visibilidade e pela tentativa de alcançar o topo do circuito independente? Quem julga quem ser capaz de atravessar essa linha?! Para roqueiros vaidosos e contestadores isso torna-se um problema.

Some-se a isso todas as diferenças regionais e os artistas profissionais que não se contentam em pagar para ter a visibilidade que já conhecem e teremos um pequeno gargalo a superar no desenvolvimento dessa economia. Nessa brecha, os fóruns estaduais de música, mobilizados pelo MINC quatro anos atrás começam a mostrar propostas para os setores não contemplados com nenhuma das duas vertentes em voga. Uma reorganização desse cenário está se configurando.

Estados como os do Norte ainda não aproveitam a circulação porque é cara e porque ainda não tem condições de circular com bons discos e material promocional. A ideologia da circulação, a máxima de que música não se vende mais, apenas se distribui para angariar shows tem excluído projetos de qualificação da produção musical, que afetam justamente os artistas do Norte, com maior dificuldade de acesso a tecnologia e informação qualificadas, de gravar bons discos (ou DVDs ou produzir bons shows). Sofremos o apogeu da nossa regressão auditiva proclamada por Adorno?!

Acredito que com mais programas e projetos na área de qualificação, a rede de circulação vai funcionar mais azeitada e outros caminhos podem se abrir para os artistas ditos independentes, como, quem sabe, o mercado digital. Uma realidade que, no Pará, só vejo capaz de mudar com a iniciativa do Fórum Estadual, que provocou o SEBRAE para a criação do programa Pará Pró Música.

O exemplo do Pará é uma mostra de que podem haver outros caminhos, sem que nenhuma outra iniciativa seja anulada.

2 comentários:

conta disse...

Fale rapaz.

Verdade. Esses aí (Caetano, Chico, Gil) não vendiam muito mesmo. Mas eles podiam gravar e lançar disco não porque os artistas americanos (ou os italianos, franceses) vendiam muito, mas porque Paulo Sérgio, Odair José, Nelson Ned e todo o resto dos chamados "cafonas" vendiam disco até o diabo dizer chega.

No Brasil, quem sustentou a música escutada pela classe média foram os artistas brasileiros que vendiam muito. Os mesmos que foram varridos das trilhas sonoras das novelas da globo na década de 70, num processo de "limpeza" por que passou a emissora e que até hoje dá o tom burro e moralista de toda a programação.

abs!

Ricardo Maradei

Nicolau disse...

Ricardo, voce tem razão arespeito dos "cafonas". O catalogo nacional logo se mostrou muito promissor. Mas no começo,bem no comecinho, o que interessava mesmo à indústria era vender os discos estrangeiros. Eles eram prensados no Brasil mas os custos de produção eram mínimos e foram gastos lá fora. Tudo isso colaborava para o enlatado estrangeiro sair mais em conta. Não sei bem se esses "cafonas" bancavam o resto. Na verdade, a industria fonográfica tem essa capacidade de somar lucros para amenizar prejuizos, funciona muito bem quando é um negocio grande. E André Midani sabia o quanto era importante o catálogo nacional, independente da legislação. Ele cria vinculos com a sociedade local, fortalece o mercado. Mas certamente os "cafonas" vendiam muito mais do que Caetano e Chico. Caetano só vendeu muito quando gravou "Sozinho".
Mas os queridinhos da indústria logo se tornaram Roberto e a turma da Jovem Guarda, o que denota essa questão moral que voce cita ai.
Mas a questão principal não é moral mas economica. Enfim, essas informações estão no livro de Tosta Dias e na biografia de André Midani. Acho que a fonte dos "cafonas" é o livro do Paulo César Araújo, mas ainda não li esse. Li a biografia do Rei. Me empresta esse?! De qualquer forma, o que é importante notar é que a música brasileira é muito rica e pode ser economicamente viável em várias frentes, mesmo com a pirataria, mesmo com o download free. Então, acredito que há outros caminhos a serem percorridos ou retomados.
De qualquer forma, muito obrigado pela sua contribuição. Volte sempre.