segunda-feira, 11 de outubro de 2010

Aparecida da Amazônia

Fotos de Walda Marques e texto da reporter Gil Sóter

Por Gil Sóter

Iva Rothe tem nome de estrangeira, tem a pele branca de uma gringa, já estudou música nos Estados Unidos. Mas quando canta, toca e compõe, o que se ouve são batuques e sons da floresta, falando de mitos da floresta, da beleza da floresta. Para Iva, a mata é uma mulher, um universo feminino e faceiro: água, fauna, lenda. Extravagante, exuberante, a Amazônia é uma mulher vaidosa, sedutora. “Feita de várias vozes, de várias morenas, de flores, de fertilidade. Da matinta, da sereia, de encanto”, diz a cantora.

Dessa beleza exótica nasceu o mais recente trabalho de Iva, batizado de maneira certeira: “Aparecida”, alguém que gosta de se mostrar ou aparecer em público, termo típico do linguajar regional. Apesar de ser o terceiro disco da carreira, a vontade de falar das mulheres caboclas vem matutando nos pensamentos de Iva desde o começo de sua trajetória, tanto que o primeiro show solo da artista se chamava “Aparecida”, realizado no teatro Margarida Schivasappa. “Falar de todo esse mistério que cerca o feminino da Amazônia sempre me pareceu muito inspirador”, diz. Isso foi pelos idos de 2000, sendo assim, o disco nasceu já com dez anos de concepção. Uma década de amadurecimento musical e de composição. Tempo para que Iva conhecesse Pio Lobato, parceiro fundamental no disco, ao lado de Beto Fares, que acompanha Iva desde as primeiras gravações e foi responsável pela produção de todos os discos da cantora.

A partir de pesquisa sonora e de entrevistas realizadas com mulheres em comunidades e municípios do estado do Pará, Iva construiu a ambientação do CD, que integra as falas às canções, fazendo das palavras de tantas mulheres parte do ritmo das 13 faixas que compõe o trabalho. O disco foi lançado em março deste ano, em Belém, e depois percorreu o Brasil, passando por cidades como Castanhal (PA), São Leopoldo (RS), Belo Horizonte (MG) e Florianópolis (SC). O álbum foi um dos três projetos paraenses aprovados pelo Conexão Vivo 2010. E agora, o encanto de “Aparecida” volta a Belém, e terá sua segunda temporada no mesmo teatro onde tudo começou. Iva Rothe se apresenta no dia 12 de outubro, às 21h, no teatro Margarida Schivasappa, do Centur.

No show, Iva vai mostrar seus dotes de multinstrumentista: tocará teclado, sampler e o belo piano de cauda do teatro. Na banda, o power trio formado por Pio Lobato (guitarra), Vovô Almeida (bateria) e Maurício Panzera (contrabaixo). O show traz ainda um agrado: Vídea, canção do disco “Aparecida”, será executada pela primeira vez no palco.

Nas canções, vários elementos de percussão que atraem ares de mistério e de natureza, mas também elementos pop, a batida do tecnobrega e do carimbó, dando vida a um repertório que se divide entre faixas de calmaria e de calor, de dança, em contraponto ao disco anterior de Iva, que trazia mantras, como resultado da experiência da artista com a cultura Hare Krishna.


Sobre o Diário de Anapu

Além de passear por cidades fora do Pará, “Aparecida” também deu o ar da graça em uma realidade difícil, que marca os contrastes da terra continental que é o estado do Pará. O projeto do disco foi desdobrado em uma oficina cultural desenvolvida, em julho deste ano, na cidade de Anapu, sudoeste paraense, e palco de uma das mais emblemáticas tragédias dos últimos anos: o assassinato da missionária norte-americana Dorothy Stang, em 2005.

Amiga da religiosa, Iva conta emocionada o episódio que a fez escolher Anapu como um dos destinos de seu projeto. “Uma semana antes do assassinato de Irmã Dorothy, ela veio almoçar conosco em casa, e me disse: ‘Iva por que você não leva sua música para nosso povo?’. E eu não poderia prever que essa seria a última vez que iria vê-la”, diz.

Irmã Dorothy atuava na Amazônia desde a década de 1970. Membro da Comissão Pastoral da terra, era uma das figuras mais ativas na defesa dos trabalhadores rurais da Região do Xingu, marcada por um histórico desastroso de conflitos agrários. Ganhou reconhecimento nacional e internacional por seus projetos de desenvolvimento sustentável e defesa dos direitos humanos numa das regiões de menor Índice de Desenvolvimento Humano do Brasil, e ajudou a fundar a Escola Brasil Grande, a primeira escola de formação de professores na rodovia Transamazônica, em Anapu.

Segundo Iva, a realidade por lá continua severamente igual. “As pessoas continuam sendo ameaçadas de morte diariamente. Enfrentamos cinco dias de viagam para chegar à cidade, que continua extremamente carente”, relata. Apesar de todo a realidade ocre, Iva diz que foi muito bem recebida pelas pessoas da comunidade. “Naqueles dias houve muita música e alegria. Alguns deles se revelaram ótimos compositores, e não falta vontade de voltar e aproveitar esses talentos.”

Como registro dessa expedição ao sudoeste do Pará, o grupo de Iva produziu fotos e vídeos que integrarão a programação do show “Aparecida”. A exposição “Diário de Anapu” vai anteceder o show, às 20h, com o vídeo produzido pelo CEPEPO (Centro de Comunicação e Educação Popular) e as fotografias que Natasha Bittar, da Fotoativa, e Carlos Henrique Gonçalves, da SECULT (Secretaria de Cultura do Estado).

A receita da venda dos CDs será destinada às obras sociais da Associação Mururé - AMU, que tem como objetivo fazer acompanhamento sócio-educativo a crianças, adolescentes, jovens e mulheres da Vila da Barca e Pedreira, em Belém, e do bairro Icuí-Guajará em Ananindeua, através de programas de capacitação e integração. As atividades defendem o acesso à educação, à cultura e ao bem-estar, além da democratização destes direitos.

Serviço:
Show “Aparecida”, de Iva Rothe, 12 de outubro, às 21h, no teatro Margarida Schivasappa. Ingressos a R$ 10 com meia entrada para estudantes, já à venda nas lojas Ná Figueredo e na bilheteria do teatro.

Um comentário:

gi disse...
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