quinta-feira, 27 de agosto de 2009

Música, jornalismo e redes sociais

Ontem, durante minha oficina de jornalismo cultural na Semana de Comunicação da Unama, perguntei aos meus 30 alunos, todos estudantes de jornalismo entre o segundo e o oitavo semestre, se alguém usara o Napster ou se tinha conhecimento de como funcionava o software; ou da importância dele para a cultura de compartilhamento de arquivos que temos hoje. Nenhum deles usou e nenhum deles sabia a resposta.
Poucas horas depois, numa mesa-redonda dentro da mesma Semana de Comunicação, lembrei aos debatedores Alexandre Ramoa e Pedro Loureiro, que discutiam sobre “redes sociais”, que este ano faz uma década que foi criado o software que revolucionou o modo como consumimos música.
Começou como uma brincadeira de um universitário entediado e terminou dois anos depois sob protestos de todas as grandes gravadoras do mundo e do então todo-poderoso Metallica, a banda de heavy metal que virou piada entre seus fãs depois de se declarar publicamente contra o Napster e de mover ações judiciais por atentado ao direito autoral.
Depois de 2000, a popularidade do software cresceu assustadoramente: algumas fontes dizem que o pico de usuários conectados ao mesmo tempo chegou a oito milhões, mas no total havia mais de 25 milhões de usuários, incluindo on-line e off-line, todos com um único interesse em comum, a música. A partir daí, a cada mês uma versão nova dele era lançada.
Algumas dessas versões permitiam abrir chats e conversar com o usuário de que você estivesse baixando as músicas em tempo real. No meu harddisck eu tinha demos da minha banda, a Norman Bates, e soube como esse não era um nome original para um grupo de rock: descobri pelo menos mais três bandas homônimas. Com uma delas, a Norman Bates e os Corações Alados, de Santos, pude estabelecer uma conversa surreal: ao mesmo tempo que os dois usuários trocavam MP3 de diferentes bandas com o mesmo nome, conversavam sobre suas origens, influências e...direito autoral. “Será que vamos ter que pagar royalties para a Warner (detentora dos direitos sobre o filme Psicose)?”, era uma das questões que suscitávamos.
Por essas e outras, além de revolucionar a indústria da música, o Napster foi o pioneiro do que nós discutimos hoje sob o tema “redes sociais”, que é na verdade um pleonasmo dentro da web, uma vez que “a rede” não se criou somente através do compartilhamento de grandes servidores mas também de computadores pessoais, interligados entre si, como já ressaltou Alexandre Matias no artigo para o Estadão que achei depois de uma breve pesquisa suscitada pela discussão.
A desativação do Napster por parte de um conglomerado que representava os interesses das grandes gravadoras, entrou para a história dessa transição como a grande gafe da indústria fonográfica, que não entendeu o potencial de ter tantas pessoas conectadas com um interesse em comum -- com os Dela inclusive.
Jornalistas contemporâneos devem estar preparados para compreender processos de transição cultural como esse a seu tempo, podendo contribuir com a construção de uma sociedade mais justa e evoluída socialmente. Mas só vamos formar esses profissionais se tivermos a técnica adequada e a ética necessária para tal transformação. Ser jornalista na Amazônia, uma das mais importantes fronteiras do capitalismo tardio, exige ainda mais preparo.
Não vejo como conciliar tais necessidades e qualidades senão na universidade, numa cadeira específica, como a do curso de comunicação. Mas mesmo a universidade precisa se reinventar. A Universidade da Amazônia se esforça para acompanhar a vanguarda dos processos comunicacionais e de interações sociais, para o bem de quem paga caro pelo conhecimento. E para o bem da sociedade que anseia por profissionais melhores.

11 comentários:

Igor disse...

Pois é, praticamente a resenha da aula de ontém né? kkkkkkkkkk! foi realmente MUITO bom o primeiro contato, pois eu não sabia que envolvia tanta coisa boa assim, em um só lugar, a arte é algo sem explicação! Parabéns tá certinha a sua resenha! (palmas) , 1. não podia deixar de citar, que houve um engano, que nem todos os alunos são jornalistas, eu faço publicidade, também são 31 alunos creio eu, meu nome não tá na lista 2. eu sei que eu já falei isso, mais o senhor mesmo disse pra eu vim reivindicar meus direitos, então aqui estou!
3. a única parte que eu não me lembro, foi a parte da mesa redonda e tal, por que eu não fui, mais tenhoi certeza que deve ter sido interessante igual a aula de ontém e hoje, já tô esperando a próxima resenha que tal? KKKKKKKKKKK! ps. vai ver estamos aprendendo mesmo como se faz uma resenha, e tô adorando demais as aulas, tem que investir nessa carreira, tem sucesso! (y) até aqui eu falei demais será? abraços Fessor!

Victor Almeida disse...

Agora já deu pra entender um pouco do Napster.
E principalmente do que é, de fato, uma resenha, ehe.
\o

Nicolau Amador disse...

Igo, obrigado pelo comentário e parabéns por vir exercitar a sua cidadania. Devemos fazer isso desde sempre; muito antes de exercermos nossa profissão. Isso nos fará ser profissionais mais responsáveis, mais éticos; e ética profissional como eu disse se aprende na universidade. Ética é conhecimento e também se aprende!
É coisa que nenhum curso de turismo ou de direito vai lhe ensinar: a ser ético no exercício do jornalismo e da comunicação.
Ademais, peço desculpas se lhe excluí da análise da turma. Eu deveria ter dito que "quase todos" eram de jornalismo. Ou que todos eram de comunicação. Se fosse fazer um adendo sobre um único aluno,talvez desviasse o foco do tema tratado. De qualquer você está aqui e pode ter mais visibilidade do que os outros 30.
OUTRA: talvez o texto, por ser um texto de blog, mais informal, possa ser classificado como um artigo. Digo isso porque o tema dele não foi somente a nossa aula. Parti da discussão da aula, fui ao debate, e contextualizei isso confrontando a necessidade que a sociedade tem de que os novos jornalistas sejam capazes de perceber as transformações sociais e culturais, como a que vem acontecendo atravás da web na última década.
Na nossa cobertura podemos "embarcar" em modismos que podem ter daqui a poucos meses ou a poucos anos uma herança cultura desprezível. A revisão, dez anos depois, do Napster lança luz sobre um tema atualíssimo como as redes sociais. O Napster, como se vê, deixou uma herança cultural nada desprezível.
Vale ressaltar ainda a citação do artigo de Alexandre Matias, que, apesar de eu não ter consultado antes de desenvolver as minhas ideias sobre o assunto, ajudou a consolidar o pensamento sobre a relação do Napster com as redes atuais. Isso é conhecimento que se constrói com dialogicamente, característica favorecida pela web se for bem utilizada. Aí entra a importância da citação da fonte como princípio ético.
Também citei um caso do meu uso do Napster que foi real, e isso ajudou a compreender bem como era esse processo de interação e o que ele poderia possibilitar além de simplesmente atentar contra os interesses comerciais das grandes gravadoras.

Abs.

Nicolau Amador disse...

Espero ter esclarecido ainda mais sobre resenhas, Vitor. Nesse exercício falamos sobre quase todos os modelos de escrita na nossa àrea: perfis, artigos, colunismo, entrevista, reportagem etc. Como a apostila que entregarei hoje mais a bibliografia sugerida, vocês terão um razoável material para seguirem em frente se realmente quiserem trilhar esse caminho. Em tres dias e 12 horas é o que dá para fazer. O resto é como vocês. Boa sorte e obrigado pelo carinho de toda a turma.

Didi Fadul disse...

Taí. É o que eu sempre falo.

Djanara Introvini disse...

Ah!!!! Também quero deixar minha marca registrada aqui. Existe uma unica coisa que não gostei da nossa oficina. O pouco tempo que nos ofertaram. Doze horas é um tempo curtissimo para podermos exercitar legal, mas acredito que o exercício que fizemos valeu bastante. Aprendi não só com os meus erros, mas também com os dos amigos. Aprendi mais ainda que Jornalismo Cultural é bem mais interessante do que eu podia imaginar. Parabéns pela oficina, apesar de não ser professor e essa ter sido sua primeira experiência(como confessaste), mandou bem melhor que alguns professores que já tivemos na Universidade. Seria uma boa ser contratado pela UNAMA. Digo que já tens uma aula para orientar no TCC. (risos) Por falar nisso... Qualquer dia desses a gente pode trocar umas figurinhas para me iluminar quanto a isso. Por mais que não seja meu orientador, Vale créditos no fim do TCC.
Bjo

Ana Paula disse...

Os três dias com você foi muito produtivo. Além de saber sobre resenhas você nos apresentou livros e autores interessantes. Cabe a nós, agora, conhece-los mais a fundo. Abraços.

Igor disse...

Concordo e assino em baixo, um voto pra cada um das minhas colegas acima! Deveria ser no minimo 1 mês de oficina , eu bem que disse, que ele parece um Professor de verdade, pois tenho certeza que além de mim, todo mundo tem uma coisa pra falar do que aprendeu, seja coletivo ou individual, enfim. FOI PERFEITO! e já tô morrendo de saudade das aulas :( ps. Obrigado Fessor de 3 dias!

Abs. +1

Diógenes Brandão disse...

Cada vez mais me convenço o quanto os cursos de jornalismo desta terrinha estão equidistantes da realidade. Saber que alunos depois de 04 anos sentados numa "cadeira específica", desconhecem o pai dos softwares de compartilhamento de arquivos, não só demostra a pseudo praparação dos alunos, mas o quanto é inútil apenas "ser universitário" se não há apropriação dos recursos tecnológicos e nem tão pouco das inovações científicas.

No entanto, o discurso que tenta disfarçar a fragilidade dos néscios que se sentem fortalecidos e parte integrante de um elite apenas por portar uma carteirinha de meia-entreda comprada da UNE torna-se cada dia mais deprimente, haja vista que os dados e fatos nos estapam a realidade e esta é implacável: Um curso de jornalismo não garante a formação intelectual de ninguém e que o bom profissional requer é de absorver a importância da leitura plural e multifacetada das relações sociais vigentes, coisa que não se transfere de um pc para o outro com um clique.

Fico imaginando os motivos que levaram Lúcio Flávio Pinto, Paulo Henrique Amorim e tantos outros jornalistas de verdade, escreverem sobre a necessidade de uma formação em ciências socais, direito e outras áreas que melhorariam de sobremaneira o trato da informação por profissioanais e ao ler este post me deparo com o fragante de uma contraditória afirmação, doravante do medo de admitir, que ter a compreensão sobre a dita ética profissional, sem ter noção dos conceitos filosóficos e da interpretação do mundo através de uma visão multidiplinar, é o fim de uma pica responsável pela indústria cultural neoliberal que previlegia a forma em detrimento do conteúdo.

A pergunta que faria à alunos deste nipe é se estaríam interessados em conhecer a relação capital X trabalho, a luta de classes, a história das grandes guerras, o que se passa no oriente médio. Assim quem sabe teríamos uma constatação concreta de que o que eles precisam mesmo para sua formação cultural e profissional é de ler. Ler mais, e lerem livros, que podem inclusive, serem adquiridos pelo emule plus*

É, meu caro rockeiro, parabéns por identificar a distância de quem aprofunda-se em buscar estar atualizado e consciente do papel da comunicação social, de quem "se acha" por entrar e sair de uma escola de "nivel superior" sem visitar a escola de Frankfurt, os clássicos da Grécia, nem tão pouco nossa vasta literatura brasileira.

Quanto à amazônia...merecemos de mais tempo para tratar da relação ensino/pesquisa/extenção que está continuamente distante da dita Universidade na Amazônia.

Nicolau Amador disse...

Dimi,
obrigado pela sua "colaboração".
estou sem tempo para responder detalhadamente seu extenso comentário. Vou só dizer que sua análise contém algumas falhas por falta de informação (esse post não é um resumo da nossa oficina, que foi muito além disso, assim como todas as atividades da Semana de Comunicação).
Por consideração aos nossos anos de Suiço Brasileiro, vou admitir certa hostilidade, mas continue tomando cuidando ao conduzir o processo. Uma "cadeira específica" se faz necessária principalmente quando a questão é Ética. Eu tive a sorte de fazer essa disciplina no curso de jornalismo da UFPA com Lúcio Flávio Pinto. Considero-me ainda mais jornalista que músico (e tão jornalista quanto qualquer jornalista "de verdade") por ter tido a formação que tive dentro e fora da universidade.

Diógenes Brandão disse...

Não há do que agradecer, meu caro amigo!

Blog é isso, feedback atendido o resto é visão/opinião unilateral e propaganda.

Se leio e comento é porque valorizo o espaço e não tem nada de hostilidade, pois trato desta área e o Brasil precisa tirar isso á limpo de uma vez por todas, talvez seja assim a mellhor forma de formarmos a futura geração científica e cultural desta nação, sem compra de diploma, filipe dilon´s da vida e uma patota de gente incompetente, o que sem dúvida não é o teu caso!

Sucesso e parabéns pelo blog!