
Por Nicolau Amador
Quatro anos atrás, quando Almir Gabriel em campanha pelo governo do estado reuniu com artistas no antigo bar Mansuá do Carmo, o então candidato perguntou à classe quanto o segmento representava para o PIB do estado. Qual era sua importância na geração de emprego e renda? Queria números.
Almir não se comprometeu em promover uma política cultural que fosse diferente da que vinha sendo praticada. Ao contrário, repassou a responsabilidade sobre investimentos no setor para a “classe”. Esses recursos, até então, haviam sido dirigidos por uma política elitista que favorecia a poucos iluminados.
Na minha opinião, de forma indireta, Almir fazia um bem cobrando organização, conhecimento e politização da classe que sempre cultivou, até por formação genética, certo individualismo e egocentrismo. Não era algo que eles esperassem, mas era e é ainda necessário saber.
(Poucas semanas atrás, em assembléia com artistas no início do segundo turno, Jatene não cobrou nem prometeu nada, limitou-se a dizer que estava disposto a “errar ou acertar, mas errar ou acertar juntos”. Nada perto de um governo que avançou tanto no setor cultural quanto o de Ana Júlia.)
Ninguém naquela assembléia tinha aquela reposta para dar ao Dr. Almir. Em 2006, os estudos sobre economia da cultura engatinhavam no país e, como tudo por demais evoluído, passavam ao largo da política dominante no Pará.
O Ministério da Cultura, porém, já começara a implantar políticas públicas pautadas também na importância econômica do setor, mas principalmente em sua importância social de inclusão e de democratização de acesso, tanto a recursos para a produção quanto para fruição, pelo menos quatro anos antes.
Saber exatamente qual retorno econômico o investimento em cultura vai dar é difícil e trata-se de uma preocupação por demais neoliberal. Ainda que o retorno econômico dos investimentos em cultura seja claro, esse investimento se faz muito mais necessário nesse momento histórico por sua importância patrimonial, de identidade e de inclusão social. (O debate sobre economia, gestão e responsabilidade será abordado em outro momento aqui.)
No entanto, os governos do PSDB no Pará tendem a planejar a cultura como instrumento de manipulação de opinião pública e com pouca preocupação social ou mesmo econômica, uma vez que os mesmos não são capazes de fazer o cálculo com as variáveis necessárias à economia da cultura (mais sobre economia da cultura em breve).
Hoje a Secult dá a cara a tapa tentando enquadrar as políticas estaduais ao modelo de referência internacional criado pela gestão de Gilberto Gil a frente do Ministério da Cultura.
Quatro anos atrás, quando a plenária de cultura da então candidata Ana Júlia Carepa reuniu artistas na antiga casa de recepções Arte Doce Hall, eu também estava lá. Antes dos artistas definirem os 13 pontos de referência para a política cultural do governo petista, houve um concerto de lamentos de músicos renomados que estavam sem perspectivas musicais pela exclusão daquele governo tucano.
Nunca vou me esquecer do Maestro Jonas Arraes encorajando os colegas, dizendo que tivessem coragem, pois com mais de 30 anos de carreira nunca lhe faltou comida na mesa graças a seu contrabaixo.
Ao contrário da assembléia tucana, que não definiu pauta nem diretrizes, os 13 pontos encaminhados pela assembléia foram impressos e distribuídos durante a campanha de Ana Júlia. Não eram 13 pontos tão bem articulados, pois, como já disse, nossa articulação política cultural também engatinhava. Mas era algo concreto a que se pudesse cobrar.
Ao final dos quatro anos, constato que alguns pontos foram concretizados com louvor, outros foram atendidos parcialmente no processo de inclusão das novas políticas públicas e na pouca participação da “classe” que continua a “egocentrizar”, pra usar um neologismo, e pouco participa de formulações. Outros pontos precisam sair do papel. Mas não há dúvidas de que, para quem esteve oito anos em desvantagem em relação ao governo Lula e mais de 20 anos em relação ao resto do Brasil, avançou muito.
Este ano, como de praxe, estive nas duas plenárias de cultura (PT e PSDB). Na do candidato Simão Jatene vi metade de uma claque armada para aparecer no programa eleitoral da TV e outra metade perplexa quando se viu usada. Quando o cantor Edilson Moreno pegou o microfone e disse que na verdade estavam todos ali para referendar a candidatura me retirei do recinto, ofendido. Fui lá ouvir ou fazer propostas. Não fui endossar nada. Pelo relato de outros colegas soube das queixas da outra metade que não via com bons olhos a volta de um certo secretário ao posto.
Mesmo assim as imagens foram usadas na TV como se os artistas paraenses apoiassem incondicionalmente a candidatura de Jatene. Outros dois colegas entraram na Justiça pelo uso indevido de sua imagem.
Na assembléia de cultura de Ana Júlia não houve promessas a não ser a proposta de continuar avançado naquilo que estava traçado. Com mais de mil pessoas presentes não houve lamentos nem queixas. Apenas o medo do Mestre Alarino do Boi Caprichoso da Cabanagem com medo de perder o apoio que nunca tivera antes.
Isso tem sido mais que suficiente para eu continuar votando 13 aqui e lá. Saiba mais sobre a assembléia de cultura da Ana Júlia aqui, e , e aqui também. E mais aqui.